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Bambi em Auschwitz

Benigni cria uma fábula cujo servilismo
esquece a história para se agarrar ao Oscar
Por Reinaldo Azevedo e Wagner Carelli

   Não é por amor a 'Central do Brasil' que se pode considerar 'A Vida É Bela',
de Roberto Benigni, um filme constrangedor. Para demonstrá-lo, propõe-se aqui um
exercício: passe o leitor na locadora e alugue 'Bambi', o desenho animado. De-
pois de algumas lágrimas, considere-se que aquele que é, provavelmente, o mais
tristemente apologético dos filmes sobre o amor filial guarda impressionante se-
melhança com os elementos essenciais de 'A Vida É Bela': o adulto priva a criança
das agruras da realidade e dá a sua própria vida para salvá-la. Não tenha receio
de ser empírico: substitua a primeira parte do filme de Benigni pela paz que rei-
nava na mata (antes da chegada dos homens maus), Giusuè por Bambi, Guido pela Ga-
zela e o campo de concentração pelo fogo na floresta. Está aí, resumida, toda a
complexidade narrativa e as nuances de personagem de um filme que vem arrebatando
multidões.
   A comparação torna-se ainda mais justa quando se sabe que um fenômeno ainda
não quantificado cientificamente, mas perceptível, tem marcado a trajetória de
'A Vida É Bela': o filme tem conquistado, sim, a unanimidade do público, mas é,
sobretudo, um fenômeno de aceitação ativíssimo entre as crianças. É talvez a
prova maior de alguma suspeita sublime que o filme deixe entrever, mas também
de sua fragilidade. O diretor costura dois pedaços de narrativas díspares num
filme que busca comover -- e comove -- um público cuja complexidade mental e
exigência estética são, ou aí estacionaram, ou até aí regrediram, aquelas pró-
prias à idade dos 13 anos. É compreensível e até saudável que 'A Vida É Bela'
seduza as crianças -- assim como 'Bambi', mas não há de fazer. Mas o que foi
feito dos adultos dos cinemas? Benigni, mancomunado com o Oscar, deu-lhes um
pirulito e os pôs para dormir.
   A fábula ad hoc de Benigni revela a idade mental a que chegou o espectador
médio de cinema. Ad hoc, isto é, feita com um objetivo definido: desgarrar-se
da história para agarrar-se a estatuetas do Oscar, com concessões espantosas e
soluções dramáticas primitivas. Faça o leitor que ainda não se quedou vítima do
embuste um outro exercício e avalie a sinopse do filme: "Para esconder do filho
pequeno que estão num campo de concentração, pai finge que ambos participam de
uma gincana". São duas ou três linhas que comovem mais do que o filme. Benigni
tinha em mãos um grande argumento sobre uma daquelas situações-limite que tes-
tam toda a glória e toda miséria de existir. Mas banaliza, com uma personagem
plana e de pouquíssimos recursos, a situação por si mesma quase insuportável de
Guido, a personagem que encarna.
   Benigni é expoente de uma extraordinária linhagem de atores cômicos, um her-
deiro legítimo da grande tradição italiana de comédia, e esperava-se dele em 'A
Vida É Bela' o maior momento de um comediante, aquele em que seu poder de fazer
rir destilará a quintessência do drama, revelará a dimensação insuportável da
tragédia. Mas ele traiu sua ascendência, sua herança e o que deveria ser o pro-
pósito de sua existência artística pela possibilidade de uma estatueta. Preferiu
eliminar toda necessária tensão de seu filme, ficar no histrionismo raso, na pi-
rueta circense, a correr o risco de desagradar às mimadas, caprichosas e desaten-
tas platéias americanas, sempre indispostas à mais sutil sugestão de reflexão.
Para não atrapalhar a digestão das pipocas, diluiu a circunstância terrível de
seus personagens a tal ponto que seu pano de fundo poderia ser tanto o Holocaus-
to quanto a floresta de João e Maria. E, com ansiedade canina pelo afago, embru-
lhou uma mentira histórico-ideológica na sua suposta fábula política em favor do
bem: em 'A Vida É Bela', o campo de concentração de Auschwitz -- tude leva a crer
que seja, aí foram internados os judeus italianos, a ele se referem os créditos
de consultoria do filme -- é libertado por tropas americanas, não soviéticas, co-
mo de fato aconteceu. A que Oscar concorreria Benigni se ao soldado de bochecas
saudáveis e expressão idiota, falando o idioma inglês com reconfortante sotaque
caseiro, correspondesse um baixinho atarracado das estepes centrais da Rússia fa-
lando como Jabba The Hut?
   Benigni fez todas as mesuras possíveis à academia de Hollywood. Vê-lo por me-
ses literalmente de joelhos, trabalhando o lobby de seu filme, foi a metáfora a-
tiva da genuflexão que seu filme logrou fazer. É inescapável: a análise da estru-
tura do enredo de 'A Vida É Bela' evidencia que a escolha do Holocausto não é ou-
tra coisa que não oportunismo. Basta assistir e pontuar a trama, seguir o tanque-
objeto do desejo. Tudo no filme converge para essa grande cena final de rendição,
o maior gesto de submissão à indústria cinematográfica americana que se tem notí-
cia no cinema europeu. O resto é incidental. Daí os personagens sofrivelmente
trabalhados, os achados fáceis, que se pretende "poéticos", do roteiro, as gags
de desfecho telegrafado com dois meses de antecedência, como requer o processo
de assimilação do humor na criança. Benigni não busca a solidariedade de senti-
mentos adultos. Torna todos os espectadores pequenos Giusuès engambelados por
suas facilidades.
   Comparar, como se vem fazendo, Benigni a Charles Chaplin é demonstrar outro
processo de degenerescência que acompanha a infantilização do público -- o da im-
becilização da crítica. O clown chapliniano, o vagabundo antiestabilishment que
fugiria horrorizado de qualquer tanque, é a demonstração do paradoxo da grandeza,
a revelação de todas as virtudes no perímetro estreito e ridículo da insignifi-
cância do homem. O Guido de Benigni é um idiota privado, de egoísmo infantil,
preocupado com o próprio umbigo -- que, num ato falho de seu criador, ele mostra
como o centro de tudo que é belo.
   As crianças de Chaplin são todos os homens, embalados no riso de si mesmos;
as de Benigni são as que enganamos para fazer dormir. Quem já passou pela expe-
riência de inventar histórias para os filhos ao pé da cama já sabe que nesses re-
latos não pode haver irresoluções ou ambigüidades, que a surpresa jamais é bem
vinda, que a estabilidade emocional que conduz ao sono deriva da repetição. O 
Benigni de 'A Vida É Bela' é a mãe desvelada das platéias contemporâneas, que
mergulham seguras em torpor emocional e intelectual às primeiras palavras de sua
voz monótona, reconhecível, mentirosa.

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