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Herói da Branquitude

O advogado HÉDIO SILVA JR., militante negro, responde a Olavo de Carvalho, que criticou neste espaço as ações afirmativas

Cara-de-pau, safado, chantagista, ambicioso, insano, inescrupuloso, demente, mentiroso, arrivista, hédico, hediondo, hediano, hediota. Adjetivos deste jaez, acompanhados de expressões destinadas a ridicularizar-me pessoal e profissionalmente, incluindo o CEERT (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades), organização à qual pertenço, foram brandidos pelo colérico Olavo de Carvalho, na edição anterior desta revista, com a finalidade aparente de atacar proposta de ação afirmativa por mim mencionada em um programa de TV. Um programa diário de entrevistas que, segundo revelação de Carvalho, teria sido preparado pela TV Cultura especialmente com o intento de propagandear minhas teses, tudo a mando de FHC e de Clinton, para citar apenas dois dos meus apoiadores denunciados pelo articulista.

A par do sucesso e do prestígio global, que somente agora, com o brado de Carvalho, vim a saber que minhas idéias desfrutam – o que eleva sobremaneira minha auto-estima, instiga meu editor a majorar o preço de um livro sobre racismo no Brasil e irremediavelmente introduz um Carvalho na galeria dos meus admiradores –, seus xingamentos, coerentes com a superioridade e o alto valor moral da cultura inter-racial que ele diz proteger, são reveladores do quanto a ética do racismo tupiniquim prossegue avessa ao contraditório, ao confronto de idéias e às regras do exercício dialógico que ao menos teoricamente teria sucedido outras formas menos civilizadas de comunicação entre negros e brancos.

É dispensável maior esforço para explicar o pânico de Carvalho. A entrevista, conduzida com o brilhantismo costumeiro do jornalista Heródoto Barbeiro, apresentava como figura central não um negro cordato, servil, mas um negro advogado e professor que discorria sobre a extraordinária produção legislativa pós-88, que, ao tempo em que atesta a relevância do problema racial no Brasil, ilustra a eficácia da atuação do Movimento Negro.

Para Olavo, esta não poderia mesmo ser a voz credenciada. Autorizada certamente seria a voz dele próprio, arguto filósofo capaz da proeza de reduzir o complexo problema do modo pelo qual os Estados contemporâneos equacionam as desigualdades a uma fórmula muitíssimo simples: qualquer debate sobre propostas de alteração das desigualdades raciais configura “racismo descarado”. E zé fini. Evidências do cotidiano, movimentos sociais, estatísticas, trabalhos científicos abrigados nas principais universidades do país, delegacias de crimes raciais, pronunciamentos de autoridades públicas, leis, reportagens, enfim, para o combativo Olavo de Carvalho, tudo isso não passa de delírio coletivo decorrente de uma maquinação universal perpetrada pessoalmente por Bill Clinton e destinada a conspurcar o paraíso racial brasileiro.

Herói extemporâneo da lealdade racial pátria, Olavo de Carvalho, onerando a função de carpideira, verte lágrimas de sangue diante do simples prenúncio da morte do secular modelito “só branco com preconceito”, responsável pela cota de 100% de brancos no ministério de FHC, no generalato, na magistratura, nas ocupações de garçons, secretárias e recepcionistas, ou nos tipos humanos até bem pouco tempo atrás estampados nos livros didáticos, nas revistas, na publicidade e na propaganda, mesmo aquelas associadas aos produtos mais populares.

Perito em generalidades, o engenhoso Carvalho, no caso específico, está algo atrasado, ou, visto sob outro ângulo, a trama só agora por ele desvendada já contabiliza nada menos do que meio século de existência: desde os anos 40, com a edição da CLT, e impulsionado pela Constituição de 88, o Brasil adota mecanismos destinados a compensar juridicamente desigualdades materiais entre empregados e empregadores, homens e mulheres, consumidores e fornecedores, portadores e não-portadores de deficiências, pobres e ricos.

Não obstante a imaginação excessivamente fértil, a indigência argumentativa e a deselegância de Carvalho, não se pode negar um mérito a sua patética performance: o de esboçar um certo rudimento de branquitude, que, embora tosca e iletrada, passa a assumir publicamente a defesa de privilégios raciais seculares. Somente por esse motivo terá valido a pena escrever estas linhas, vez que reconheço outros entusiastas da branquitude, cujo refinamento intelectual e a competência teórica e retórica confeririam um mínimo de estímulo e dignidade ao debate, o que definitivamente não é o caso de sua excelência Olavo de Carvalho.

De resto, seria recomendável que nosso herói não ficasse tão estressadinho com os novos discursos que emergem na política e na mídia; afinal, o processo de democratização racial da sociedade brasileira está apenas começando.

Quanto aos ataques pessoais, sugiro ao consagrado escritor que intensifique a labuta, de maneira que sua produção possa servir ao menos para custear os honorários de um bom colega.


Revista República, julho de 1999, ano 3, no. 33, Copiado de uma fotocópia da revista disponível em: http://teste.pc2.com.br/republica/edicao/33/42