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Revista Bravo!
JULHO 99 - ANO 2 - No. 22 - R$ 6,00 www.revbravo.com.br no Universo Online

Ensaio!
O ANTILEVIATÃ ------------------------------

O "não" como estilo
Como torturar a língua e influenciar pessoas
por Olavo de Carvalho

    O velho Graciliano, sem dúvida, sa-
bia escrever. Mas em verdade vos digo:
não sabia ensinar. Com ele aprendemos
uma lição desastrosa: quando por uso
excessivo uma palavra se torna vulgar,
cortamos a palavra do vocabulário em
vez de lhe infundir vida nova mediante
um uso mais engenhoso. Cortar, cortar,
cortar: é só isto o que sabem fazer os
graciliânicos, numa fúria castradora de
fazer dó. Vetar palavras sob pretexo de
vulgaridade tornou-se a suprema vulga-
ridade, consagrada em todos os manuais de redação. São cursos de
ascetismo histérico, que, para curar uma espinha, amputam o nariz e,
por um pneu furado, jogam um carro no ferro-velho. Pois cortar,
meus filhos, é o expediente dos tímidos, que,
não sabendo o que dizer numa festa, imaginam
proteger-se de todo o vexame abrigando-se num
mutismo soturno e constrangedor.
  O próprio Graciliano era assim na vida real, e
vocês não vão me dizer que essa é uma boa fór-
mula de desempenho social ou de saúde men-
tal. Cortar é o últimko recurso, quando tudo o mais falhou. Se você
experimentou mil e um arranjos e cada um ficou pior do que o outro, aí
sim, apele ao seu Graciliano interior e suprima a frase incurável.
Fora disso, não seja covarde: inibição e autocastração nunca deram
saúde a ninguém. E podar o dicionário resulta apenas em intimidar
os outros, infundir-lhes a peste da inibição. Sei que no Brasil isso
funciona: quem não tem nada para se faz de importante com
uma cara feia e um "não". Mas é jactância de pobre. A autoridade,
entre nós, não tem a figura de um rei, mas de um sargento de polí-
cia ou de um buocata por trás do guichê -- o tipo do sujeito que
não pode nos ajudar, mas pode atrapalhar. Um professor de cons-
trangimento. "Outrossim é a p. q. p.?" Pois é a tua, malandro.
   É claro que Graciliano dizia uma coisa e fazia outra. Seus escritos
estão cheios de termos preciosos, bem como de expressões da fala
vulgar nordestina, que só eram novidade no Rio de Janeiro. Vulga-
ridade é questão de ocasião. O vulgar e o excelso não estão separa-
dos por um abismo ontológico. O mais vulgar dos chavões, usado de
maneira levemente irônica ou num contexto inusitado, adquire a vi-
talidade e o fulgor de um achado genial. Leiam Julien Green e sabe-
rão do que estou falando.
   Outra miséria que aprendemos em Graciliano é a obsessão das
frases curtas. Os manuais mandam não passar de cinco linhas, dan-
do por pressupostos que na sexta o leitor, cretino como o autor, já
esqueceu o começo da frase. Pois então para que tem o nosso idio-
ma esse magnífico sistema de tempos e modos verbais, que permi-
te a uma idéia ressoar simultaneamente em vários planos, como
numa polifonia? E para que tem essa majestosa galeria de conjun-
ções, que articulam todos os modos da realidade e da possibilidade,
construindo um andaime verbal para ajudar a inteligência do leitor
a se elevar, partindo do sensível, aos graus supremos da abstração
filosófica? Filosofar em alemão? Droga! Temos o melhor idioma fi-
losófico do mundo, e não nos damos conta disso porque nossos es-
critores nos proíbem sair do círculo do sensorial e do imediato, com
sua maldita estilística do "não". Até quando reinarão sobre nós os
mais buros, vetando com sorriso de desdém fingido tudo o que está
acima de suas cabeças?
    A mim uma coisa me parece cla-
    ra. Quanto mais nos esquecemos
    do latim, menos percebemos a
    verdadeira força do nosso idioma
    e mais procuramos amoldá-lo às
    limitações do inglês, este sim uma
    língua de de onomatopéias e excla-
    mações abruptas, em que após a 
    quinta linha não há mais fôlego
    que agüente. Já que vocês gostam
    tanto do alemão, façam uma expe-
    riência. Peguem um texto do mais
complexo escritor filosófico germânico, que não é Hegel ou Hei-
degger, mas Schelling, e traduzam para o inglês. Verão que, lá pela
metade do período, terão sido obrigados a cortá-lo em dois ou
três, para que o leitor não se perca numa barafunda de apostos e
orações subordinativas que o inglês não tem meios de subordinar.
Traduzam agora para o português. A gente chega à 15a, à 18a linha,
e o fio do pensamento está lá, intacto e visível, graças à mágica
dos modos verbais diferenciados e à funcionalidade das conjun-
çṍes portuguesas. Traduzindo Weber, Hans Gerth e C. Wright Mills
confessaram que seu idioma, não obstante tão forte na expressão
de impressões do cotidiano, não agüentava os períodos intermi-
náveis daquele pensador obcecado de precisão e de nuanças. Pi-
cotaram tudo. Mas o próprio Weber diz que, em geral, só as frases
longas podem dar unidade a idéias complexas. Um escrito filosó-
fico em frases curtas quase sempre se perde em puro impressio-
nismo, que, como diz a palavra mesma, só é bom para impressio-
nar, no mais das vezes à custa de confundir.
   Ora, a força do latim vem de seu vasto sistema de declinações e
conjugações; no português aquelas se perderam, mas estas se con-
servam. Declinações permitem mudar a ordem de construção da fra-
se sem perder-lhe o sentido. Isto nem sempre podemos fazer em
português, mas em inglês não se pode quase nunca. Conjugações
permitem transcender, sem perdê-la, a idéia de tempo. É talvez por
sua língua ser desprovida de um sistema rico de conjugações que os
ingleses e americanos ficam com tanta freqüência divididos entre um
materialismo (ou um pragmatismo) terra-a-terra e um transcenden-
talismo descarnado: o tempo e a eternidade tornam-se facilmente
para eles dimensões separadas e incomunicáveis, enquanto o pensa-
dor latino -- Giambattista Vico, Louis Lavelle ou o nosso Mário Fer-
reira dos Santos -- transita de um à outra na mesma frase, mediante
um simples giro de modos verbais. O latim, afinal, é a língua por ex-
celência daquela que é, por antonomásia, a religião da encarnação:
da eternidade no tempo, do tempo na eternidade. Mas, se perdemos
o senso da nossa raiz latina, temos de pensar como americanos. E aí
não nos resta outro meio de nos sentirmos brasileiros senão imitar
Graciliano, o mestre da frase curta. Só que, ao imitá-lo, estreitamos
dramaticamente nossas possibilidades, abdicando de uma riqueza
milenar que, por direito de herança, nos pertence.