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BRAVO!
ABRIL 99 - ANO 2 - No 19 - R$ 6,00 www.revbravo no Universo Online

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O argumento central

Sim, pode-se gostar de 'Central do Brasil',
de WALTER SALLES, e não gostar de 'A Vida É Bela',
de Roberto Benigni. Não é incorreção política ou patriotada:
é apenas o exercício do discernimento

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O elogio da compaixão

Por que gostar de 'Central do Brasil', de Walter Salles, e reprovar
'A Vida É Bela', de Roberto Benigni, correspondem a livrar ambos os
filmes da sombra deformadora da ideologia e abrir-se para o mundo 
dos afetos
Por Olavo de Carvalho

   Todo mundo já escreveu e falou sobre 'Central do Brasil', e eu bem poderia
me abster de tocar no assunto se as coisas que li e ouvi a respeito não me pa-
recessem um tanto mais estafúrdias do que posso suportar calado. Não me refiro
só às manifestações de generalidade hipócrita que se apressam em socializar a
glória de Walter Salles, como se um prêmio não fosse uma distinção, e sim pre-
cisamente o contrário -- uma repartição igualitária dos méritos entre quem tem
e quem não tem. Refiro-me às opiniões que pretendem ir um pouco além dos rapa-
pés fingidos, entrar a fundo no entendimento da obra e trazer ao desamparado
espectador que nada compreende por si as luzes da superior intelectualidade que
nos guia. Que seria de nós, de fato, sem o auxílio dessas amáveis criaturas que
são estipendiadas pelo Estado para nos dizer o que é o certo e o errado, isto
é, respectivamente, a esquerda e a direita de todos os fenômenos do mundo?
   No exercício do seu mister, sacerdócio ou militância, essas pessoas têm dis-
cutido bastante a "ideologia" de 'Central do Brasil'. E, como no Brasil de hoje
somente à esquerda é permitido discutir o que quer que seja, as hipóteses em
disputa são: primeira, 'Central do Brasil' é um filme tão de esquerda quanto
qualquer outro digno desse nome; segunda, não é um filme tão de esquerda quanto
se desejaria que fosse, uma vez que parece esgotar-se num humanitarismo senti-
mental sem nenhum apelo político determinado.
   Permito-me intervir nesse debate, ainda que um pouco tarde, e declarar, para
escândalo geral e talvez para a completa danação de Walter Salles no futuro
Brasil socialista, que se trata de um filme de ideologia acentuadamente conser-
vadora; que nisto reside sua originalidade no panorama do cinema brasileiro; e
que todos os seus defeitos provêm de seu diretor haver tentado fazê-lo com os
meios narrativos disponíveis criados por duas gerações de cineastas esquerdis-
tas, daí resultando alguns equívocos e vacilações numa obra a que nem por isto
falta aquela singular eloqüência direta que é uma das marcas da sinceridade.
   Para tornar essa idéia mais compreensível, é preciso lembrar que no Brasil de
hoje só existem, a rigor, duas correntes políticas: os social-democratas que es-
tão no governo, os comunistas que estão na oposição. Os poucos liberais que res-
tam só sobrevivem graças a uma aliança aviltante com os social-democratas, dos
quais se tornaram serviçais. Não há um partido conservador, e, na esfera da cul-
tura, qualquer idéia conservadora está a priori banida como coisa criminosa --
isto não só por um acordo tácito, mas pela ação ostensiva e cada vez mais prepo-
tente de autonomeados comitês de censura. No campo da educação e dos valores mo-
rais, os social-democratas sustentam um discurso idêntico ao dos comunistas, mas,
como no campo econômico seguem por alto a política do FMI (aliás, menos por con-
vicção do que por falta de imaginação) foram designados pela mídia esquerdista
para o papel de direita ad hoc, o que faz com que o governo, quanto mais ceda à
pressão comunista fora das questões econômicas, mais seja acusado de direitista
e até de fascista por conta do tratamento que dá a essas questões. Um governo
social-democrático, liberal da boca para fora e a contragosto, posta enfim como a
única direita possível no Brasil atual e se torna alvo de um discurso condenató-
rio idêntico, em tudo e por tudo, ao que se dirigia nos anos 60 contra a direita
militar, da qual acaba por ser, para todos os fins de imagem midiática, perfeita-
mente indistinguível.
   Bem sei que essa situação tem um toque de demência, que nela nenhuma idéia ou
palavra corresponde exatamente às coisas que designam e que por fim todo o dis-
curso político brasileiro se parece com o de um ator que pretendesse representar
Hamlet com as falas de Otelo.
   Mas que a situação é essa, é. Em tais condições, não é de se espantar que a
intelectualidade, diante do sucesso internacional de um filme brasileiro conser-
vador -- uma hipótese tão escandalosa que se torna impensável --, termine impe-
dida por um escotoma de enxergar do que se trata e, discutindo-o nos termos ha-
bituais com que o autismo esquerdista discute suas divergências intestinas, a-
cabe por não entender absolutamente nada.
   Em geral o filme vem sendo interpretado no sentido quase de um 'Bildungsroman',
a história da educação -- e da transformação -- da personagem Dora pelo desenro-
lar da experiência vivida. E, como Dora toma consciência do sofrimento dos po-
bres, mas não chega a captar nenhum sentido político na opressão que a rodeia e
tudo enfim se resolve no plano da pura compaixão, o filme é diagnosticado como
portador de uma consciência política real, sim, mas incipiente e raquítica. A
discussão esgota-se portanto na questão quantitativa de saber se a obra é es-
querdista o bastante para ser admitida como coisa decente. Há quem diga que sim,
há quem diga que não. Se há uma coisa repatida com justiça neste mundo, é a cre-
tinice.
   O fato é que, por esse prisma, nada se enxerga e tudo o que se consegue é fa-
zer a discussão ir parar tanto mais longe do seu objeto quanto mais se aproxima
das opções ideológicas estereotipadas que a resumem. Pois o fato é que a trans-
formação de Dora é demasiado superficial para constituir, por si, o núcleo da
história. Dora nem é tão má no começo nem fica tão boa no fim. Essa transforma-
ção não pode ser o essencial da trama por um motivo muito simples: a mudança de-
cisiva acontece logo no começo, quando a farsante aproveitadora toma pela primei-
ra vez na sua vida uma decisão moral, arriscando tudo para salvar um menino a
quem mal conhecia. Em todo o restante da história, ela não passa por nenhuma ou-
tra tomada de consciência mais profunda, mas apenas por uma progressiva e passi-
va acomodação às novas circunstâncias de sua existência, resultados incontorná-
veis da escolha inicial. Se notarmos que no curso da narrativa ela passa da con-
dição de uma modesta mas estável solteirona de classe média baixa (nos padrões
brasileiros, entenda-se) para a de uma desempregada errante e miserável, veremos
que sua situação externa mudou muito mais do que suas idéias e sentimentos.
   Não, a alma de Dora não é o núcleo do enredo, e a transformação dela não
é a essência da trama. Essencial é a mudança da condição objetiva, social e 
pessoal do menino Josué à medida que o desenrolar dos acontecimentos o afas-
ta da grande cidade e o conduz de volta às suas raízes no coração do Brasil,
onde ele recebe de volta a condição humana que a maldade do meio urbano lhe
havia negado. O que se transforma não é a alma dos personagens individuais:
é a condição social e moral que os cerca, a qual muda junto com a paisagem,
à medida que câmera os acompanha da periferia ao centro.
   A grande cidade surge aí como o cenário do mal, um mundo condenado em que
a busca do dinheiro leva a extremos de crueldade e a miséria é o penúltimo
estágio de uma jornada descendente em direção ao nada. É o Brasil moderno,
decerto, mas é uma modernidade estúpida, desumana e sem futuro. À medida que
se desloca para o interior, Josué encontra um Brasil antigo, primitivo, mas
cheio de humanidade e promessas de futuro. Na grande cidade, seus irmãos, Moi-
sés e Isaías, teriam se perdido na voragem do banditismo, terminariam balea-
dos nas ruas. No sertão, conseguem erguer a cabeça e conquistar um princípio
de vida decente.
   O Brasil progressista e dinâmico da grande cidade é o vasto cemitério das
esperanças humanas. O Brasil arcaico e rude do sertão é o depósito intocado
das virtudes populares e daquela religiosidade simples e devota que, a uma
certa altura da história, produz milagres e floresce num buquê de sorrisos es-
perançosos -- um dos momentos mais belos do filme de Walter Salles.
   A cidade do diabo e o sertão de Deus -- não há como evitar o paralelo com
o grande clássico do conservadorismo na literatura portuguesa, o romance 'A
Cidade e as Serras', de J. M. Eça de Queiroz. Tal como o rico Jacinto do ro-
mance, o menino pobre e a solteirona empobrecida de 'Central do Brasil' empre-
endem uma jornada em direção ao centro, a qual, se não os leva aos céus, os
devolve, ao menos, do inferno a um mundo normal e são em que ainda pode bri-
lhar um sorriso.
   Talvez não seja irrelevante lembrar que o título do filme -- 'Central do
Brasil' -- é o nome de uma ferrovia que, hoje reduzida ao transporte de carga
e à ligação com os subúrbios, antigamente era o principal meio de transporte
para a população pobre entre as grandes cidades e o centro do país, entre o
Brasil novo e o Brasil velho. Refazendo por meio rodoviário o trajeto da anti-
ga ferrovia, Dora e Josué descobre, de certa maneira, que a ordem dos fatores
está hoje invertida: o Brasil "novo" é um inferno sem esperança, o Brasil "ve-
lho" é um mundo novo que nasce. Nada mais é preciso para demonstrá-lo do que
a eloqüência mesma de um enredo que transporta os dois heróis desde um inferno
compreesivo onde se vendem crianças para extrair seus órgãos, até um cenário
primitivo onde as pessoas têm nomes bíblicos e ganham a vida com o ofício evan-
gélico da carpintaria; desde a brutalidade da vida urbana até um mundo arcaico
onde a seiva da vida brota dos valores tradicionais: família, religião, humil-
dade, trabalho. Na jornada de volta, o encontro com o caminhoneiro marca preci-
samente o meio do caminho. Esse personagem ainda tem um pé no Brasil antigo,
pelo apego a esses valores; mas já participa da modernidade, na medida em que
os recebeu, um pouco alterados, pelo viés das novas seitas evangélicas importa-
das dos Estados Unidos. Ele pode levar Josué e Dora até um certo ponto -- mas,
tucanamente, recua amedrontado ante a perspectiva de um comprometimento profun-
do. Se ele se casasse com Dora, constituiriam mais um arremedo moderno de famí-
lia, colando pedaços de famílias dispersas. Seria um happy end bom para as no-
velas politicamente corretas da Globo. Em 'Central do Brasil', isso não serve.
Adeus, tucanismo: é preciso ir mais fundo, reencontrar a família originária, a
religião antiga, a raiz autêntica. Entre o "mundo" e a "alma", no sentido bíbli-
co dos termos, não há conchavo possível.
   Se isso não é conservadorismo, não sei o que é. Mas como a hipótese de que o
conservadorismo possa ter algum mérito é hoje crime hediondo, todos se abstém de
cometê-lo e têm de escavar, no imaginário progressista, as mais rebuscadas des-
culpas para legitimar um aplauso cuja negação descarada passaria por coisa anti-
patriótica, o que seria um tremendo vexame para pessoas que têm o monopólio do
patriotismo. Comunista sofre, não é?
   Nos últimos anos, a radicalização artificial dos ódios políticos levou a o-
pinião pública nacional a perder de vista o pressuposto básico da ordem demo-
crática: o princípio de que nossos adversário políticos não são monstros ou a
encarnação do mal (são apenas pessoas que acreditam poder realiza o bem por um
caminho diferente do nosso) e de que a verdadeira monstruosidade só começa quan-
do nos esquecemos disso. Reinvidicar para os conservadores e antimodernos o di-
reito a um rosto humano é hoje um ato de salvação nacional que requer coragem,
generosidade. 'Central do Brasil' devolve à nossa consciência entorpecida pelo
discurso monológico dominante um fundo de valores antigos sem os quais toda mu-
dança social se perde -- como resumiu um grande atista conservador, o poeta Ma-
nuel Bandeira -- numa "agitação feroz e sem finalidade".

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