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Só preto, com preconceito

Como o gérmen do racismo se instala no discurso das ações afirmativas. POR OLAVO DE CARVALHO

Sexta-feira, 14 de maio, fui convidado pelo programa Opinião Nacional, da TV Cultura de São Paulo, a dizer por telefone, do Rio, o que pensava das quotas raciais nos empregos. O que penso é simples: conferir direitos especiais aos cidadãos de determinada raça é negá-los aos de outras raças; é racismo descarado. Porém, mal eu havia começado a dizê-lo, o entrevistador Heródoto Barbeiro me informou que um outro convidado, diante das câmeras, iria responder às minhas abreviadíssimas declarações de entrevistado invisível.

Era um advogado de nome Hédio – sim, Hédio – da Silva Júnior, fundador de um tal Centro de Estudos de Relações de Trabalho e Desigualdade e especialista em processos de negros contra brancos. Não fiquei sabendo se o doutor era branco ou preto, pois minha TV a cabo estava desligada por falta de pagamento. O que eu pude compreender do que ouvi foi que até o momento seus clientes são raros, já que a população negra não está consciente de ser vítima do racismo, e ainda mais escassos os seus possíveis sucessos forenses, já que a população branca não está consciente de ser racista e assim é quase impossível provar crime de racismo. No intuito de remediar tão lamentável situação, empenha-se o referido causídico numa campanha de esclarecimento para que os brancos se tornem racistas assumidos e os pretos se sintam horrivelmentemente discriminados – um resultado que, segundo ele, trará a completa e definitiva eliminação do racismo brasileiro.

Um exemplo dos métodos usados para tão nobre finalidade consiste em apregoar que qualquer anúncio de emprego que exija “boa aparência” exclui, por hipótese, os candidatos pretos, todos de péssima aparência na aparente opinião do dr. Hédio. Se o anunciante nem de longe pensou nisso, dane-se: como se trata de racismo inconsciente, pouco importa o que você está fazendo – quem sabe é o dr. Hédio. Ele lhe dirá quais foram suas intenções inconscientes – e você vai parar na cadeia por um crime que não sabe que cometeu.

O dr. Hédio inaugura, com isso, uma revolução jurídica de conseqüências portentosas. Na antiga ciência do direito, o criminoso não podia alegar ignorância da lei. Na nova, ninguém poderá alegar ignorância dos conteúdos do próprio inconsciente. A invenção é inteiramente original no mundo jurídico, já que seu único antecedente foi no campo da literatura de ficção (ver Franz Kafka, _O Processo). Em homenagem a seu criador, será portanto denominada, no futuro, jurisprudência hedionda.

Mas tudo isso só chegou ao meu conhecimento depois, quando uma boa alma paulista me reproduziu parte da entrevista gravada. Na hora, só o que ouvi foi a resposta que o dr. Hédio me ofereceu diante das câmeras – um insulto seguido de uma mentira:

– Esse é o discurso típico de um servidor do poder. É um argumento desatualizado, que foi muito usado durante a ditadura.

Revidei o insulto foi mais ou menos assim. A causa defendida pelo dr. Hédio tem o apoio do governo Bill Clinton, da ONU, do Banco Mundial, das fundações Ford e Rockefeller, de centenas de empresas multinacionais, do The New York Times e todo o establishment midiático norte-americano, do nosso presidente e sua digníssima esposa, da Rede Globo, da TV Cultura – e eu é que sou um servidor do poder! A estratégia assumida dos poderes globalistas contra as nações é precisamente fomentar lealdades supranacionais (raciais, sexuais, ecológicas) para enfraquecer a unidade das culturas nacionais e solapar o poder dos Estados. Eles gastam nisso rios de dinheiro, inclusive no programa de educação discriminatória (só para negros) financiado no Brasil pelo BankBoston – tudo para garantir as costas quentes de gente como o dr. Hédio. Esse doutor era realmente um cara-de-pau.

Além disso – acrescento agora – é um servidor do imperialismo cultural empenhado em jogar brasileiros contra brasileiros, em destruir nossa confiança no alto valor da nossa cultura inter-racial para que, esquecidos da nossa superioridade moral nesse ponto, consintamos na abjeção de receber lições de democracia racial de um povo que finge combater seu próprio racismo invertendo os pólos da discriminação. É um propagandista da demagogia globalista pollically correct, o mais pérfido instrumento que alguém já inventou para quebrar o pacto da lealdade nacional, dividindo para reinar. Mais ainda: como advogado que incita os negros a se sentir discriminados quando não o são e os brancos a assumir, à força de chantagem emocional, um racismo que não querem, o dr. Hédio vive disso, ganha com isso e não tem com isso o menor drama de consciência: quem poderá abalar aquela firmeza de convicção que nasce do matrimônio indissolúvel entre uma ideologia insana e uma ambição demente? O rótulo difamatório de “servidor do poder” que o doutor colava na minha testa era enfim a mesma coisa que aquele racismo que ele atribuía aos outros: pura autoprojeção.

À segunda observação do dr. Hédio eu teria respondido, se pudesse, que o debate das quotas foi posterior ao fim da ditadura e não pode antes disso ter suscitado qualquer argumento que fosse; que portanto a estapafúrdia alegação hédica, hediana, hedionda ou hediota só se explicava pelo safadíssimo desejo de criar um comprometimento artificioso da minha imagem com a de uma ditadura que, na época, só me pôs na cadeia porque não chegou a minha vez. Mas não pude dizer mais nada: diante da minha resposta à primeira parte, o entrevistador Barbeiro agradeceu gentilmente minha participação e desligou rapidinho, ciente de que fizera, ao me convidar, a maior barbeiragem. Afinal, todo o programa fora calculado para realçar, com dinheiro público, o charme e a simpatia das doutrinas hediondas.


Revista República, junho de 1999, ano 3, no. 32, copiado de uma fotocópia da revista disponível em: http://teste.pc2.com.br/republica/edicao/32