fiatjaf

A miséria dos nossos filosofinhos universitários contrasta da maneira mais penosa com o talento, a erudição e a garra dos nossos historiadores. A Guerra na Idade Média, de Ricardo da Costa (Rio, Paratodos, 1998), prossegue e honra uma tradição que começa em Portugal, com Alexandre Herculano e Oliveira Martins, que continua no Brasil com Capistrano de Abreu e Oliveira Lima e é, em compensação da nossa humilhação filosófica, um motivo de orgulho para a cultura luso-brasileira. A profusão de bons estudos em todas as área da ciência histórica é tal, neste país, que muitos dos melhores acabam por passar quase despercebidos, como aconteceu com O Brasil e a Revolução Francesa, de João de Scantimburgo (São Paulo, Pioneira, 1989), e, antes disso, com o notabilíssimo A Cidade e o Planalto: Processo de Dominância na Cidade de São Paulo, de Gilberto Leite de Barros (São Paulo, Martins, 1967); ou por ser injustamente esquecidos, como se deu com o clássico A Consciência Conservadora no Brasil, de Paulo Mercadante (Rio, Saga, 1956), e com a majestosa Teoria da História, de João Camilo de Oliveira Torres (Petrópolis, Vozes, 1963). Em contrapartida, nota-se, nos últimos anos, uma ampliação do círculo de interesses dos nossos historiadores, que, limitados, tradicionalmente ao período que se inicia com os Descobrimentos, começam a remontar à Idade Média e à Antigüidade, em busca das fontes mais remotas da nossa cultura. Não assinalei quando saíram, mas assinalo agora os estudos do medievalista uspiano Hilário Franco Jr., As Utopias Medievais (São Paulo, Brasilientese, 1992), e A Eva Barbada: Ensaios de Mitologia Medieval (São Paulo, Edusp, 1996), capazes de redimir, por si sós, todas as vergonha que têm passado seus colegas do vizinho Departamento de Filosofia. Não sei de vergonhas uffianas, mas, se as houver, bem podem alegar como atenuante o livro agora publicado de Ricardo da Costa, de vez que autor é, na Universidade Federal Fluminense, membro do Grupo de Estudos Medievais dirigido pela professora Vânia Leite Fróes. – OLAVO DE CARVALHO