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Abaixo o imbecil coletivo! Todo poder ao indivíduo!

O filósofo Olavo de Carvalho escreve o último livro subversivo e propõe a única revolução que o intelectual ainda pode abraçar: a que libertará as inteligências dos grilhões da ideologia

POR WAGNER CARELLI

Fotos Claudia Jaguaribe e Bruno Veiga

O livro chama brutalmente a atenção pelo título – O Imbecil Coletivo - Atualidades Inculturais Brasileiras – e por nada mais, em princípio. Muito em princípio, porque basta abri-lo em qualquer página para revelar-se o que possa haver de distinto na expressão intelectual brasileira, hoje: originalidade, sabedoria, abrangência, discernimento, critério e uma inabalável crença, em meio à mais aguda e dolorosa crítica, na inteligência do ser humano. Tudo exposto em tremenda e desafetada erudição, texto delicioso – conseqüentemente acessível – e humor incansável. Volta-se à capa e o nome do autor, Olavo de Carvalho, passa francamente despercebido pelo comum dos leitores. Alguém pergunta: “Não seria Olavo Monteiro de Carvalho?”

Não. O filósofo Olavo de Carvalho está muito aquém de ser rico, não figura em coluna social, não partilha de qualquer poder instituído, não pertence a grupo ou panela, não dá palpite sobre o que for em programa de TV. É o antípoda da “pessoa maravilhosa”, do assim chamado “formador de opinião”. Aparece pouco e, sobretudo, jamais é visto falando o que não sabe. Ele sabe muito, em todo caso, o que não ajuda a torná-lo mais visível. Assusta a sinceridade certeira, reveladora, com que desautoriza o pensmaento de luminares da inteligência pátria e implode suas referências políticas e ideológicas, sejam locais ou estrangeiras, antigas ou recentes. É hoje, por aqui, o crítico e intérprete de maior clareza da cultura, brasileira e universal, em atividade franca, incansável, produtiva. Um sábio e um perigo, porque Olavo de Carvalho parece imunizado contra a vaidade que assola seus pares. O caráter de sua inteligência dá mostras de ser moralmente inflexível e não cooptável em um meio de frágeis espíritos, capazes de definhar à míngüa na carência do elogio e da aceitação.

Significa que ele não quer e não irá unir sua voz altíssima ao coro monocórdio, complacente e acrítico, de uma intelectualidade corporativista até o hipotálamo, que se autodeclara inatacável e mantinha-se inatacada até o advento dessa absoluta novidade: um intelectual solitário, um lone ranger do pensamento, rápido e infalível na crítica, e disposto a mirar contra os próprios caras-pálidas. Depois de algumas escaramuças públicas que chamuscaram as mais sólidas vaidades, o coletivo da inteligência chamou a cavalaria de volta ao forte e apelou para seu mais covarde recurso: o descaso, sempre à mão, sempre eficaz na gerência das instituições brasileiras. Se Olavo de Carvalho não está entre eles, não está em lugar nenhum – não existe.

O Imbecil Coletivo segue atirando, porém, e já vai pela terceira edição – “revista, aumentada e muito piorada” –, sem publicidade, passando ao largo de gritos e sussurros, com apelo estável e constante entre os ávidos pela verdade. Muito por cima, o livro é o resultado da simples leitura, pelo autor, dos cadernos culturais dos grandes jornais brasileiros. Desse microcosmo conforma-se toda uma filosofia, de fato, original, com uma teoria do conhecimento, com uma metafísica, uma ética. Uma filosofia elaborada longe das academias, em formação solitária e disciplinada, levada a cabo em 20 anos de “isolamento profilático”, como diz o filósofo, “estudando o que ninguém estudava, preocupando-se com o que ninguém se preocupava” – sobretudo, e à diferença de seus pares, em não falar bobagens. Há três anos, Olavo de Carvalho julgou-se afinal competente e equipado para apontar publicamente todas as bobagens que é capaz de perceber. Para acomodá-las, foram necessárias as 483 páginas de O Imbecil Coletivo, quase todas elas escritas em tom de urgência jornalística e organizadas em artigos que nenhum jornal ousou publicar antecipadamente.

Os escritos: 14 livros publicados e 20 mil páginas à espera

O que fere mortalmente em Olavo de Carvalho é a qualidade de suas objeções e a coragem de assestá-las contra alvos distantes e insuspeitados. Seu conceito de “imbecil coletivo” parte de uma crítica feroz à idéia de “intelectual coletivo” proposta por Antonio Gramsci, a última chance, o derradeiro pensador a ser aureolado pela esquerda com o dom da infalibilidade. “Gramsci nega que o conhecimento humano possa descrever o real e declara que a última finalidade dos nossos esforços culturais e científicos é expressar desejos coletivos”, diz Olavo de Carvalho em O Imbecil Coletivo. “Ele quer demonstrar que não há conceitos nem juízos universais válidos, mas é possível criá-los pela propaganda, fazendo todas as pessoas partilhar das mesmas crenças. Gerar essas crenças é a função do intelectual. O ‘intelectual coletivo’, essa entidade fantasmagórica incumbida de dirigir as consciências de seres desprovidos de consciências, formada ela mesma de indivíduos que por si não têm consciência nenhuma, vai moldando os sentimentos da massa sem dar margens a discussões, nem prestar satisfações à exigência de uma ‘verdade’”.

Essa entidade teria vingado e está aí. É talvez a maior conquista esquerdista de uma esquerda que, derrotada no confronto direto, armado, mimetizou o inimigo e organizou-se como Estado, como uma superestrutura sobreposta à ção do indivíduo em qualquer instância e circunstância da vida pública e privada. À escalada vertiginosa da estatização que o Estado Novo inaugura no país nos anos 30 – quando será estabelecido que o Estado, não o indivíduo, faz tudo e conseqüentemente faz a história –, corresponde também o início do processo de estatização de corações e mentes pela intelligentzia. Essa palavra russa, lembra Olavo de Carvalho, não abrange em seu significado todas as pessoas empenhadas em tarefas científicas, filosóficas ou artísticas, “mas só aquelas que se persuadem mutuamente de estar colaborando par algo que juram ser o progresso social e político da humanidade”. Desse núcleo, Gramsci extrai seu intelectual coletivo. E Olavo de Carvalho, seu imbecil coletivo.

“Uma vez esclarecido o significado de intelligentzia, a expressão que nomeia o livro adquire plena clareza”, ele escreve. “O imbecil coletivo é uma coletividade de pessoas de inteligência normal ou mesmo superior que se reúnem movidas pelo desejo comum de imbecilizar-se umas às outras.” O processo teria três fases. Primeiro, cada membro da coletividade se compromete a nada perceber que não seja percebido por todos os outros. Segundo, todos juram de pés juntos que o que eles percebem coletivamente é o mundo verdadeiro. Terceiro, fica estabelecido que o padrão de conhecimento expresso pela comunidade como um todo não pode ser superado por qualquer consciência individual, de dentro ou de fora do grupo. “Assim, se um dos membros da coletividade é mordido por um cachorro”, escreve Olavo de Carvalho, “deve imediatamente telefonar para os demais e perguntar-lhes se de fato foi mordido por um cachorro”.

Essa é talvez a crítica mais relevante que a intelectualidade brasileira – em nada muito diferente da que pontifica em toda parte do mundo – poderia ouvir. Se ouvisse, de fato, teria aí o mais provável e efetivo instrumento para sua libertação, para despertar de sua letargia produtiva e revigorar sua expressão anêmica. O que se escutou claramente, contudo, foi apenas a palavra “imbecil”, tomada pessoalmente e contra-atacada, como de praxe, com a ofensa pessoal. Ao fulgor dos argumentos de Olavo de Carvalho não se opôs sequer um espelhinho. Leandro Konder foi dizer aos jornais que aquele era “um discurso de direita”, Emir Sader disse simplesmente que “ele (Olavo) é de direita”, outro escreveu que se tratava de “um auto-intitulado filósofo” e Muniz Sodré disse que o personagem “nem homem é”.

Que Olavo de Carvalho não é de esquerda, é certo. Em todo caso, estudou o marxismo por sete anos e militou no Partido Comunista por três, à época do racha de Carlos Marighella. “No fundo, eu estava ali por solidariedade a meus amigos, mas estudei tudo não só do Marx, como até a merda daquele manual de filosofia da Academia de Ciências da URSS. Quando apareceu o Lukács, foi um alívio: era um grande homem. Mas a coisa toda não respondia, não era nada que pudesse satisfazer a alma.”

No escritório-biblioteca de 20 metros quadrados: o suficiente para um intelectual contrário a subsídio, que nunca pediu um tostão

Ele fala em alma – logo, não pode ser de esquerda e, conseqüentemente, é de direita. É próprio da imbecilização coletiva: quem não estiver à esquerda, só pode estar à direita, e vice-versa. Não há outro ponto localizável no universo intelectual. Dizê-lo “de direita” é ainda procurar colocá-lo como membro da elite abastada e afilhado do poder que supostamente representaria. Quem dera. Olavo de Carvalho vive em um apartamento de sala e quarto num prédio popular, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro; a seu igualmente minúsculo escritório, no apartamento ao lado, de paredes forradas de livros do chão ao teto por onde passeia uma gata, só se tem acesso por uma porta empenada. “E não estou reclamando: sou contra mecenato, subsídio, nunca pedi um tostão a ninguém e o que ganho é suficiente. Dívida cultural é barata”, diz.

Ele não é, tampouco, um filósofo diplomado. É um filósofo de fato, com produção exposta em currículo de 11 páginas, espaço dois. “Diploma? Deus me livre. Nem diploma, nem boate. Eu entretive a idéia de fazer um curso de filosofia e cheguei a curtir umas aulinhas na PUC-SP e na USP, o suficiente para perceber que era uma perda de tempo total. Foi só fazer as contas: quanto tempo eu vou levar pra tomar o ônibus, chegar lá, escutar o cara falando e voltar? Sete, oito horas por dia, durante cinco anos. Muito tempo para ouvir a Marilena Chauí: dava pra fazer as obras completas de Aristóteles.

Ele vai chegando lá. O Imbecil Coletivo é só o rostrum, como define, de sua obra. “É aquela figura de ferro que vai na proa da embarcação para demolir a outra – mas atrás tem navio.” O navio é composto de 14 livros publicados, dos quais sua predileção parece recair sobre o douto e lindamente escrito Jardim das Aflições, de 1995 – “Onde mostrei aos leitores o combate de Leviatã e Behemot no horizonte inteiro da história ocidental”, escreve. O Imbecil Coletivo, O Jardim das Aflições e mais A Nova Era e a Revolução, de 1994, comporiam na verdade uma trilogia com o sentido de “situar a cultura brasileira no quadro maior das idéias no Ocidente, num período que vai de Epicuro à ‘Nova Retórica’ de Chaim Perelman”, de onde Olavo de Carvalho chegou a uma “conclusão inescapável”: “As ideologias, quaisquer que fossem, estavam sempre limitadas à dimensão horizontal do tempo e do espaço, opunham o coletivo ao coletivo, o número ao número; perdida a vertical que unia a alma individual à universalidade do espírito divino, o singular ao Singular, perdia-se também o sentimento de escala, o senso das proporções e das prioridade”. Pífio, não? É a expressã de um “filósofo auto-intitulado”.

O navio da obra de Olavo de Carvalho ainda inclui em sua estrutura dois livros em preparação para publicação este ano e pelo menos outras 20 mil páginas escritas ainda por publicar. Ele tem trabalhos premiados sobre o Islamismo – na Arábia Saudita – e sobre Ortega y Gasset – na Espanha. Lê em inglês, francês, espanhol, italiano, alemão, grego e latim. Fundou e dirige no rio o Instituto de Artes Liberais. Fundou com Luis Pellegrini uma das melhores livrarias do país, a Zipak, em São Paulo. É consultor de enciclopédia para assuntos de filosofia, simbolismo e religião comparada. Dirige um cultuado Seminário de Filosofia na Faculdade da Cidade, no Rio, que também editou O Imbecil Coletivo. Vive exclusivamente do resultado dessas atividades.

Os seminários de Filosofia: autodidatismo cultuado

Quanto a Olavo de Carvalho “não ser nem homem”, deve-se examinar a assertiva em duas vertentes. Muniz Sodré quis rubricá-lo com a acepção mais grosseira e negar-lhe a masculinidade, parece evidente. Mas Olavo de Carvalho casou-se cinco vezes – em todas, com mulheres – e tem oito filhos. Sua paixão de infância pelas religiões, que o levou pelo caminho do conhecimento, é só e intensamente intelectual. A mãe tentou convencê-lo a trilhar o sacerdócio, mas outra paixão do filósofo, as mulheres – essa nada cerebral e incontrolavelmente carna –, frustrou a expectativa materna. Aliás, para quem também lhe confere a pecha de racista, lembre-se que sua primeira mulher é negra. “Tenho um filho de cabelo pixaim”, diz.

Dizer de Olavo de Carvalho que “não é homem”, na outra vertente, essa percebida apenas como ato falho, em sinais emitidos pelo poderoso inconsciente coletivo da intelligentzia nacional, é negar-lhe a humanidade. Um golpe baixíssimo e, no caso, um ato próprio e revelador da mais cruel desumanidade. Olavo de Carvalho é um homem falando aos homens, na mais transbordante representatividade que a espécie confere ao termo, no singular e no plural. Não se nota em seus textos minúscula ponta de rancor ou inveja; sua crítica toma indivíduos apenas como amostra de fenômenos mais ou menos universais: está cheia de compaixão, confiança no destino do homem e empenho na libertação das consciências.

Não fosse assim, nada teria a dizer esse paulista de Campinas, há sete anos no Rio, de apenas 50 anos completados em abril. “Não vou ficar rico, comprar iate, aparecer com o que eu escrevo, e nunca tive a ilusão de mudar nada”, ele diz. “O mundo, depois que eu sair, vai estar do jeito que estava quando entrei, senão pior, Mas é obrigatório passar o saber adiante, só para que as pessoas se sintam um pouco melhor. Durante toda a minha infância e juventude, tive a opressiva sensação de burrice atroz. Sei o quanto é duro não entender, levar as pancadas do destino sem saber de onde vêm. A maior parte das pessoas vive assim. Tudo que faço tem o fim de aliviar meia dúzia delas, que seja, desse fardo. Se o efeito for maior, melhor, mas não cabe a nós decidir sobre os efeitos dos nossos atos. Dar certo não importa. Fazer o certo, sim.”

Olavo de Carvalho concedeu a seguinte entrevista a República:

República: Vamos classificá-lo, à moda do imbecil coletivo: você é o primeiro ombudsman da cultura política e da política da cultura no Brasil.

Olavo de Carvalho: Ombudsman? Ombudsman? Obrigado pelo título, era tudo que eu desejava. O que eu queria ser quando crescesse. Mas é bom ressaltar que o imbecil coletivo é um fenômeno mundial. Ele aparece quando começa a organização estrutural em que se apóia a atividade da cultura hoje em dia. Podemos datar isso aí, mais ou menos, das décadas que antecederam a Revolução Francesa, quando começam a se formar aqueles famosos clubes, o clube jacobino, e tal. Aí se iniciou um tipo de atividade intelectual que consistia basicamente em assembléias. Procurava-se formar rapidamente um consenso entre a classe letrada, consenso esse que se denominava opinião pública, embora fosse a opinião de apenas uma pequeniníssima elite. Era a elite falante. Nessa época, começa também o culto das personalidades notáveis. Antes do século 18, personalidade notável só poderia ser um guerreiro, um sábio ou um santo, e sua fama se disseminava oralmente – pouco, quer dizer. Levava um tempão até que se ouvisse falar, na Alemanha, do milagre de um santo na Itália. Com o progresso da impresa começa a haver uma difusão maior e cria-se o culto da personalidade notável, que vem a ser o diferente dos outros – o sujeito esquisito. Mas ele não é tão diferente assim, porque surge uma leva de pessoas igualmente diferentes, igualmente esquisitas. Surge uma faixa de pessoas uniformemente notáveis, e protótipo deles é Rosseau. Ele é o primeiro sujeito que escreve um livro todo dizendo: “Eu, eu, eu, eu, eu isso, eu aquilo”; O primeiro autor umbigocêntrico da história universal. Então todo mundo quer ser como Rosseau, quer ser uma pessoa notável, quando nem se entende bem o que há de notável na pessoa. Notável é aí, em princípio, o cara que fala de si de uma interessante e tem algo de extravagante para contar. O século 19 é todinho feito dessas pessoas.

Um coletivo de pessoas que se acham muito diferentes – e que são iguais entre si.

E que compõem uma casta com o direito de ser diferente sem pagar o preço. Essas pessoas acabam premiadas pela diferença, aliás. São pessoas sempre estipendiadas, ajudadas pelo governo, por fundações, por ricaços. E estabelecem aos poucos a intelectualidade moderna. Claro, que ao mesmo tempo se desenvolveu o que chamaríamos a atividade intelectual normal – a de quem faz pesquisa científica, que estuda temas filosóficos, que dá aula – e que permanece num discretíssimo segundo plano. Esses também configuram uma legião, mas quando se fala em intelectualidade se pensa primeiro na figura notável, na gente maravilhosa. O fenômeno do imbecil coletivo se dá sobretudo na faixa das pessoas maravilhosas, aquelas que o Edgar Morin chama de “a classe falante”. São as pessoas que têm o dever de ter opinião, mesmo sobre assuntos de que nada entendem. O ator de teatro é consultado sobre o controle da natalidade, o padre é consultado sobre a venda da Vale do Rio Doce.

Mas como se dá o fenômeno?

Onde quer que a intelectualidade cresça, há grandes movimentos ideológicos que procuram apossar-se dela, dominar a mente do intelectual – e nada mais fácil que dominar a mente do intelectual. O movimento comunista sempre desprezou os intelectuais, mas sempre os teve a seu serviço. Lênin tinha nojo de intelectual, mas ao mesmo tempo tinha a seu lado um cordão de puxa-sacos. São pessoas frágeis pela vaidade, sempre necessitadas de demonstrações de amor e afeição, vivem com os nervos à flor da pele e precisam de reforço no seu modo de ser.

Dá para fazer um retrato falado do imbecil coletivo?

O protótipo do intelectual das classes falantes, hoje, é, primeiro, o sujeito que não sabe ficar sozinho: se ele tiver uma opinião que não é compartilhada pelos outros ele fica desesperado. Durante toda a história humana sempre houve a idéia de que a vida intelectual profunda está ligada à solidão. De repente surge uma idéia contrária, a desse intelectual público, que tem sempre de estar com a cara à mostra, tem sempre de estar no palco. Aí se forma a imbecilidade coletiva: na incapacidade do indíviduo ver as coisas fora do contexto de sua casta. Quando um certo discurso se dissemina nessa casta, torna-se de tal forma arraigado que é impossível sair dele por um único minuto. Seja do que for que se fale, tudo é automaticamente convertido para essa gramática.

Esse fenômeno mundial não tem uma expressão específica, brasileira?

No Brasil, isso se tornou especialmente notável depois da década de 30, quando os comunistas ganharam a luta pelo poder entre a intelectualidade. Há inclusive uma data-marco, o famoso episódio do congresso da Associação Brasileira dos Escritores, que os comunistas tomaram a muque. Esse domínio, que viria a se expandir grandemente, pelo meio editorial, pela imprensa, acabou sendo desfeito nos últimos anos. A mentalidade dominante nessa faixa, hoje, já não obedece a um comando unificado. O que está é uma espécie de discurso residual, como o sapo que continua se mexendo depois que morreu.

Mas esse sapo não parece mais vivo que antes?

Sim. Esse discurso residual é mais forte. Antigamente havia um comando unificado com o qual se podia discutir. Agora ninguém comanda, ninguém discute. Hoje, todo mundo é marxista sem saber. Se você liga a televisão, você vê o discurso da luta de classes da manhã à noite. Começa com o curso supletivo, de manhãzinha, que ensina a luta de classes como uma realidade básica, diz que a economia é o motor da história. Parece um cursinho preparatório agit-prop. Mas não é, não foi feito com essa intenção. O sujeito põe lá no ar a única versão da história que ele conhece.

Mas o que acontece? Por quê? Fora Karl Marx não tem outra versão tão simples, que se possa tão facilmente reduzir a um discurso uniforme. As outras versões são conflitantes entre si, são complicadas, são difíceis, não dá para formar uma unanimidade em torno delas. Do outro lado, entre os liberais, não há consenso nas opiniões, não há unidade de doutrina. O jovem letrado quer sentir que participa da mentalidade comum dos seus pares e adere a esse discurso que chamaríamos, como chamaríamos?, metamarxista, pós-marxista, sei lá o nome do bicho. Mas é um discurso marxista residual, que nos ensina que a história é movida pela luta de classes, que existe a mais-valia, essa coisa toda que economicamente falando não tem o menor sentido.

A propósito desse sapo, todo mundo parece prestar atenção no que dizem os ideólogos da esquerda norte-americana, como Fredric Jameson. Uma esquerda que nunca se propôs a fazer a revolução e que discute questões ultrapassadas entre os comunistas brasileiros pelo menos desde 1960.

Claro, a esquerda norte-americana nunca teve a ilusão de fazer uma revolução socialista nos Estados Unidos. Ela se tornou uma esquerda mais voltada para questões específicas, a das minorias, a dos direitos humanos. Criou um discurso, vamos dizer assim, complementar. Eles se conformavam em viver no capitalismo mas procuravam aguçar os antagonismos, as contradições. Hoje, quando o mundo inteiro desistiu de fazer a revolução socialista, a intelectualidade do mundo inteiro virou uma espécie de esquerda norte-americana. Uma esquerda que não quer o socialismo – só quer piorar o capitalismo, tornar a nossa vida mais insuportável no capitalismo.

O politicamente correto parece ir por aí, não?

Sim. O que se procura fazer é explorar os antagonismos entre grupos, entre raças, entre regiões, jogar homem contra mulher, o gay contra o hetero. É o tempo todo essa conversa. Chegaram a um discurso francamente racista que só na aparência é contra o racismo. Que eu saiba o Brasil era o único país do mundo que tinha uma cultura não-racista, embora tivesse uma sociedade ainda com resíduos do racismo. A cultura não era racista; com a sociedade aconteceu uma estratificação social diferente: os descendentes de pretos herdam o ônus do longo tempo em que seus antepassados ficam por baixo, durante a escravidão, e não conseguem se levantar, pela exclusão econômica. Que também não é o propósito consciente de ninguém: esse é o efeito impremeditado de uma série de erros. Mas se o Brasil tinha a solução, por que tem de importar o problema?

Com os alunos em restaurante carioca: soltando a voz depois de 20 anos de "isolamento profilático"

E o protesto vem em caixa-preta, se faz exatamente do mesmo jeito que é feito lá fora.

Vem tudo prontinho, é tudo macaqueado. Por que copiar justamente o que esses americanos desastrados fizeram? Eles nunca souberam lidar com isso, estão imersos naquela puritanismo que tem uma repelência física pelo sujeito de outra raça. Nos Estados Unidos, anti-racismo significa formar uma comissão de judeus, uma comissão de pretos, uma comissão de irlandeses, outra de italianos, cada uma representando a sua comunidade. Aqui não dá para fazer isso: a única comunidade com unidade, por tradição, é a judaica – e os judeus são meia dúzia no país. O descendente de alemão não está ligado à cultura alemã – está ligado à brasileira. O de italianos também. Somos todos brasileiros. Não é possível estabelecer aqui uma democracia racial na base da represnetação – que é uma solução precária, encontrada em um país racista. Lá os caras são racistas mesmo, só resta colocá-los em torno da mesa para dialogar. O brasileiro dialoga entre raças na cama. É uma das poucas coisas em que nós acertamos. Deveríamos ter orgulho disso, em vez de estragar.

Mas todo mundo engole as questões caquéticas que eles propõem como se fossem a ordem do dia.

O debate sobre se a arte deveria ser participante ou não, por exemplo, é dos anos 50. E à época, a decisão final das grandes cabeças do PC, Lukács entre eles, foi que um artista com talento e a cabeça reacionária, como o Balzac ou o Thomas Mann, poderia ser mais competente para produzir uma obra de arte que repetisse o movimento da história do que um artista pretensamente participante. Chegou-se à conclusão, mais ou menos consensual, de que não se deveria jogar a obra de arte por esse lado. Agora eles voltam a fazer a mesma pergunta. Ou seja, a esquerda sabia a resposta em 1950 e hoje já não sabe mais, porque a esquerda americana não passou por tudo isso. Foi sempre composta de um bando de analfabetos, que não leram Lukács até hoje. São uns caipiras, como esse Jameson que está chegando e não sabe porra nenhuma. Mas infelizmente esses caipiras estão com o microfone na mão e a câmara na cara deles.

Para quem quer manter atual o ideário de Marx, parece uma mão na roda.

Eu larguei esse negócio de marxismo muito antes de cair o muro de Berlim. Fui aos poucos perdendo o respeito por Karl Marx e hoje sinto mesmo um certo desprezo por ele. É tão furado… Minhas primeira objeção, como eu digo no Jardim das Aflições, é que ele se diz materialista, mas como é que ele nos apresenta o mundo? Como se a natureza física fosse apenas o cenário passivo da ação humana: é a história que está no centro. Mas que raio de materialismo é esse? É totalmente incoerente, porque se a natureza não tem propriedades que atuam sobre nós, se a ação dessa espécie que ocupa um planetinha entre bilhões de galáxias – ação essa que mal arranha a casca do planetinha –, se essa espécie é o centro atuante de todo o universo, então Marx não é materialista mais não. Ele é totalmente antropomórfico. Nada contra, mas aí é um antropomorfismo não consciente, e em filosofia eu sou contra qualquer coisa não consciente. O sujeito não pode, na sua filosofia, estar expondo uma idéia e por baixo passando outra. A filosofia está justamente para que isso não aconteça.

Por que a esquerda não consegue imaginar-se sem Marx? Por que o intelectual não consegue mover-se daí?

Acho que é insegurança terceiro-mundista. Só por motivos estritamente ideológicos, sem levar em conta o lado político-ideológico, já não dá pra aceitar Marx. O problema é que a formação do intelectual por aqui é deficiente. Ele não tem aquela certeza que se adquire facilmente num país mais velho, de cultura milenar, perante a qual se posicione. Na França, na Itália, é fácil ver se o sujeito sabe ou não sabe – porque tem muita gente que sabe, e o saber é confrontado. Aqui, a ausência de uma retaguarda histórica deixa todo mundo meio no ar. Posso dizer, hoje, que tenho segurança, mas passei a vida inteira no ar como todo mundo. Só que tem o seguinte: eu fiquei quieto, e eles falaram o tempo todo.

E falaram protegidos por essa espécie de coletivização do trabalho cultura, em que todo mundo fala as mesmas bobagens e ninguém ousa dizer que se trata de bobagem, não é assim?

É, essa coisa da interconfirmação, o um aplaude o outro, o outro aplaude o um. No fundo ninguém sabe o que está fazendo. O pessoa confunde cultura nacional com cultura individual. Ninguém precisa, individualmente, criar uma cultura nacional. Precisa é fazer o próprio trabalho. A cultura nacional surge de uma somatória mais ou menos não premeditada. Aqui o pessoa sempre pensa em criar rumos coletivos para a cultura nacional, e às vezes ele confunde o que deve ser o rumo dele com o que seria bom para o Brasil inteiro.

Pode-se falar em uma cultura nacional brasileira?

A cultura brasileira estava num caminho muito bom no tempo do Império. Na época que se formou a Academia Brasileira de Letras você tinha lá toda uma geração extraordinária – Machado de Assis, Joaquim Nabuco, Oliveira Lima, Euclides da Cinha, gente do mais alto gabarito. Dificilmente vai ter outra geração assim. O problema é que aqui temos uma idéia errada sobre o que é sermos nós mesmos. Em primeiro lugar, não se pode falar em sermos autênticos no plano nacional se cada um não é na esfera individual. A sinceridade individual é tudo: a somatória de várias contribuições sinceras constituirá algo maior que valha a pena. Não adianta nada bolar uma sinceridade coletivas – a simples expressão do termo já mostra que se trata de uma palhaçada. Como poderá haver uma cultura nacional antes que cada um faça algo por contra própria?

O que é que forma, e o que atrapalha a formação de uma cultura nacional?

Eu acho que o mais importante é a possibilidade de contato pessoal entre as pessoas criadoras, inteligentes e cultas. Eu me perguntei muitas vezes: é preciso um regime democrático? É preciso riqueza? E percebi que surtos criadores aconteceram sob as circunstâncias políticas e econômicas mais variadas, não se consegue traçar por aí uma constante que demonstre que isto ou aquilo favorece ou desfavorece. O florescimento da cultura russa sob o despotismo czarista é fantástico. Não só eles estavam sob uma tirania como não tinham o que comer. Eram uns pés rapados, os únicos que tinham dinheiro no bolso eram Tolstoi e Turgueniev, e este vivia no exterior. Dostoiévski, Soloviev, grande filósofo do século 19, eram duros. Mas o que havia de comum nessas circunstâncias? A possibilidade do contato direto e pessoal, do diálogo entre aquelas pessoas diferentes. Em três grandes momentos da filosofia – a grega, a escolástica e o ideolismo alemão – dá para localizar esses encontros pessoais. As duas maiores cabeças pensantes da filosofia escolástica, São Boaventura e São Tomás de Aquino, embora um pertencesse à ordem franciscana e o outro à ordem dominicana, eram amigos pessoais e podiam trocar idéias. A mesma coisa aconteceu na academia platônica e no liceu aristotélico. O idealismo alemão envolvia umas 30 pessoas, mais ou menos, e todas se conheciam, se correspondiam, eram amigos. Esse encontro pessoal era uma coisa básica, e hoje em dia não se tem isso.

Esta parece ser uma era e um lugar em o outro foi abolido, o outro não existe.

Não existe, e cada um fica defendendo a sua alminha, para que não seja violentada por uma idéia contrária que cometa o pecado de persuadi-la.

Mas não se pode dizer que o intelectual tenha tido a intenção declarada de recusar-se aos encontros.

Não. Por incrível que pareça, uma entidade que favoreceu e fomentou os encontros foi o Partido Comunista. Aliás, o Brasil foi educado pelas seguintes entidades: o PC, o Exército e a Maçonaria. Eram as três entidades em que as pessoas se encontravam e trocavam idéias. Infelizemente, nenhuma das três tem condições de criar uma cultura de interesse de todos – cada uma cuida do seu interesse. Era necessário um ambiente mais neutro, que facilitasse essa convivência. De qualquer modo, o movimento editorial dos anos 30, 40, 50, propiciava esses encontros. A livraria José Olympio foi um lugar fantástico. De repente você chegava lá e encontrava o Francisco Campos, ministro da Justiça, homem de gênio não só jurídico mas também sociológico, a quem nunca deram o devido valor, conversando com o Graciliano Ramos. Eu e meus alunos fizemos uma série de entrevistas com os intelectuais que tinham se formado na década de 30. Pegamos o Herberto Sales, o Dorival Caymmi, o Enio Silveira. Queríamos investigar isso aí: como é que foi sua educação, o que te educou fundamentalmente. A resposta era unânime: eu aprendi com os amigos que fiz na juventude. Você vê que esse contato intenso era a coisa básica. Quando um cara estava escrevendo um livro, os outros tinham interesse em saber do que se tratava. Foi nessa época que o Augusto Frederico Schmidt buscou o Graciliano Ramos lá naquele cafundó-do-judas. Tinha gostado de um relatório que escrevera sobre sua gestão na Prefeitura de Palmeira dos Índios. A qualquer coisa que fosse criativa as pessoas davam valor e iam atrás. Que editor hoje está procurando o que quer que seja?

Como o intelectual brasileiro chegou à incapacidade de ser sincero?

A primeira coisa foi a politização excessiva da atividade intelectual durante o período da ditadura. Enquanto os milicos dominavam o país, o pessoal da esquerda dominava os meios culturais universitários. Essa politização tem um sentido trágico, porque toda vez que o indivíduo não vê chance de ação política, sua vida perde o sentido e a atividade intelectual lhe parece uma besteira, quando é evidente que qualquer atividade produtiva da inteligência tem um valor em si mesma, mesmo que não tenha nenhuma repercussão. Um homem que persiga uma verdade realizou uma possibilidade humana que não tinha sido realizada antes, mesmo que só ele fique sabendo. O pessoal acha que tudo aquilo não tem uma repercussão histórica não é nada, mas está errado: o que aconteceu, aconteceu, mesmo que não tenha sido registrado. O que um homem realiza é realidade a partir desse momento, e marca mais uma etapa na evolução da espécie humana, ainda que os outros não percebam. Sócrates é o primeiro a perceber que a inteligência do indivíduo humano tem capacidade de captar verdades universais. Até então pensava-se que a verdade universal era o que estivesse incorporado à sociedade, ao Estado. Ele percebe que não. Vamos supor que Sócrates não tivesse tempo de avisar: o fato teria ocorrido, mesmo assim. Seria real. Um membro da espécie humana realizou uma possibilidade. E a partir desse momento aquilo é realizável pelos outros também. Mesmo que ninguém fique sabendo.

Mas pessoas maravilhosas, para que sejam maravilhosas, precisam da apreciação e do registro.

As pessoas só ligam para a repercussão histórica. E a repercussão histórica não é a realidade – é o que as pessoas falam dela. A repercussão do ato, a fama, acaba se tornando mais importante que você mesmo. Mas o que ninguém sabe, e que é real, pode ser muito mais importante. Os caras têm horror da verdade solitária. O que torna seres humanos dignos de atenção, o que os eleva acima de um gato, ou uma minhoca, é a capacidade que todos têm de descobrir solitariamente a verdade.

Mas a cultura moderna não parece preocupada com a verdade, muito menos a de um só.

Toda a cultura moderna é uma cultura de lisonja ao egoísmo, ao que há de mais baixo no indivíduo. O que pode dar sentido à vida só se faz por um caminho subjetivo, que não se inventa: só você pode chegar até lá, ninguém mais em seu lugar. É seu dever e missão, algo que o supera, que é melhor que você mesmo, e que se torna o objeto de seu amor e dedicação. Um homem vale o que serve – a sua é uma glória emprestada, já se disse. Mas a voz corrente, hoje é a de que a inteligência da espécie humana não vale nada, não é confiável – à exceção da inteligência de quem o diz, claro.

Seria possível então produzir verdades solitárias que desmintam toda uma suposta verdade coletiva, demonstrar que é possível estar certo contra tudo e todos – aparentemente o seu caso?

É possível que todos os historiadores se enganem. Acho difícil que a humanidade toda se engane, mas quantas vezes aconteceu de uma época ou uma coletividade inteira se enganar? As idéias que persistem por longo tempo entre toda a humanidade sem sofrer influências são dignas de atenção. “A verdade sempre vence”, se diz. Mas também se diz que “a verdade é filha do tempo”. As verdades contidas em O Imbecil Coletivo continuarão verdades quer o leiam, quer não. Quando o esquecerem, o livro não será menos verdadeiro. A não ser as partes que estão erradas, que eu não sei quais são, ainda. Pode ser que eu tenha falado um monte de asneira. Mas não percebi.


Verdades Solitárias

Brevíssima, mas sempre expressiva, seleção de pensamentos extraídos de O Imbecil Coletivo

O leitor. “Dirijo-me exclusivamente ao leitor individual, na solidão de sua consciência, naquele seu fundo insubornável de que falava Ortega y Gasset, onde ele é capaz de admitir verdades que renega em público. Dirijo-me ao que há de melhor nele, não à sua casca temerosa e servil que diz amém à opinião grupal por medo da solidão.”

A culpa da ditadura. “A ditadura militar não explica a esterilidade intelectual do período, nem o total desespero dos letrados. O que explica, sim, é a incapacidade dos intelectuais brasileiros de enxergar valor e sentido no trabalho da inteligência fora das finalidades políticas imediatas. De sua depressão e isolamento vemos o nascimento das tendências morbosas, destrutivas e cínicas que depois viriam a contaminar toda a sociedade. Não conseguindo derrubar o governo, os intelectuais inferiorizaram a revolta, puseram-se a derrubar a família, a moral, a gramática, a personalidade humana, os sentimentos, o respeito pela civilização, tudo aquilo que adorna e enobrece a vida, para disseminar em seu lugar um espírito de revolta nietzscheana e de cinismo nelsonrodriguesco”. Tudo em nome, é claro, do combate à ditadura. Mesmo depois de extinta, a ditadura ainda é o pretexto legitimador de todas as baixezas.”

Bom-tom vs. verdade. “Bruno Tolentino pode ter infringido as regras do bom-tom (em sua polêmica com os irmãos Campos). Mas uma cultura em que as regras de bom-tom são mais relevantes do que a veracidade intrínseca dos argumentos é uma cultura moribunda.”

Negros. “As novas bandeiras, importadas dos EUA, que se exibem nas manifestações da negritude parecem desenhadas pelos racistas brancos para expor ao ridículo o povo negro. A exigência de reparações é o exemplo mais visível. Os negros agora exigem uma indenização dos bisnetos de seus antigos senhores, mas ao mesmo tempo gabam-se de ser descendentes dos faraós, que escravizaram dezenas de povos durante 15 séculos. Não vejo como escapar da pergunta: por que vocês não pagam primeiro o que devem aos judeus? E a teoria das reparações sugere ainda uma outra pergunta, mais incômoda: quanto de sangue negro será preciso ter para ser admitido na fila do caixa? O mulato – cinqüenta por cento branco, cinqüenta por cento negro – paga ou recebe?”

Gays. “Nenhuma preferência sexual, por mais justa e legítima que seja, deve disputar a primazia com o que é necessário à sobrevivência da espécie humana. Os gays não têm, moralmente, nenhum direito de pretender que a sua conduta valha tanto ou seja tão digna de respeito quanto a dos heteros. O homossexualismo é e sempre será uma questão de gosto, e o heterossexualismo, uma questão de vida ou morte.”


Revista República, julho de 1997, ano 1, no. 9, copiado de uma fotocópia da revista disponível em: http://teste.pc2.com.br/republica/edicao/9/34