fiatjaf

Charme e Amargura

Carlos Díaz Alejandro, quando professor visitante no departamento de economia da PUC do Rio, me chamou a atenção para os cantos de sombra da cidade. Lembravam-no a Havana de sua infância. Hoje, toda vez que vou ao Rio, observo na cidade de sol e luz os cantos escuros, encardidos pela umidade, e me lembro de minha infância, de Carlos Díaz e de tudo que se foi.

O Rio me dá calafrios de melancolia. De família mineira, nasci e cresci no Rio. Sou carioca, moro em São Paulo e sofro com o Rio. Há anos já me angustiava com seus destinos. Cidade seduzida e abandonada pela capital federal, o Rio ficou sem proposta.

Quando conheci a secretária-executiva do programa de recuperação de New York, que tinha feito sua tese de doutorado sobre as favelas cariocas, cheguei a pensar que seria possível repetir no Rio um programa que fora aplicado com sucesso em outras cidades. Baseado na ação coordenada de empresas privadas, o programa requer a boa vontade das autoridades. Mas, antes de mais nada, precisa de gente disposta a dedicar parte de seu tempo para um trabalho comunitário. Disposição que, hoje percebo, eu mesmo não tinha.

Não sei se o problema ficou mais difícil ou se fiquei mais cético, mas tenho pouca esperança de ver o Rio diferente. Evito, de forma proposital, usar a palavra melhor. Digo apenas diferente. O Rio de hoje, de violência, dos seqüestros, da polícia corrupta, da pobreza, vem sendo gestado há muitos, muitos anos.

O intricamento do crime com a sociedade, a camaradagem entre jovens de classe média e marginais, o vocabulário comum, o fio condutor da droga e a cultura da malandragem estão hoje na essência do ser carioca. “Aí xará, tu foge num avisa a gente?” A pergunta do seqüestrador, ao ouvir a falsa notícia da libertação do seu prisioneiro, é um misto de crueldade, humor e camadaragem essencialmente carioca.

Tenho a impressão de que o Rio é como um amigo mimado, criado por uma tia rica. Um jovem charmoso, malandro, bajulado por todos, que nunca levou nada a sério e sempre acreditou que na lábia tudo se resolve. O tempo passou, a tia se mudou para Brasília e, em crise, amargurado, se defronta com uma total falta de perspectiva. Que fazer?

Não há resposta. Não faz sentido sugerir agora que deixe de ser quem sempre foi, exigir que muda sua história da noite para o dia, que ponha terno e grava, que se matricule num curso noturno e vá procurar emprego.

Só resta tratá-lo com carinho, aceitá-lo como é, dar tempo ao tempo e rezar para que ele se encontre. Sobretudo é preciso evitar que, tomado pela amargura e pelo ressentimento, com a idade, perca também o charme.

Sexta-feira ou sábado, aqui mesmo nesta página, Cony citou, e aparentemente subscreveu, um artigo que sugeria que por trás dos seqüestros estariam importantes nomes do sistema financeiro, interessados em captar o dinheiro dos resgates.

A tese é tão estapafúrdia que ainda não sei se é séria ou se eu estou perdendo o senso de humor. Mas se for a sério, é um extraordinário exemplo de como a amargura pode levar a ver conspirações malévolas por toda parte. Não é à toa que o brizolismo fez tanto a cabeça do carioca.


Copiado da coletânea de artigos de André Lara Resende “Bolhas e Pêndulos”.