fiatjaf

Escrever e gritar

Olavo de Carvalho

Ouvindo conversas pelas ruas de Paris, percebo que a fala da classe média é notavelmente articulada e bem próxima do francês escrito. Que diferença em comparação com a indigência das nossas comunicações diárias, as quais, gravadas e transcritas, isto é, desligadas do contexto não-verbal, se tornam matagais disformes e impenetráveis e só recuperam a inteligibilidade à custa de severos cortes e adaptações. E o pior é que estes, se reproduzidos na conversação, arriscariam ter um efeito empostado e pedante.

Entre a língua escrita e a língua falada no Brasil, o abismo é cada vez mais fundo. Mas como poderia não ser assim, num país onde o povo não lê? E como poderia ler, se os escritores, nominalmente encarregados da preservação da norma culta, padrão da unidade do idioma, são os primeiros a estourá-la, num festival de pretensa criatividade que é pura dispersão centrífuga e lisonja demagógica a um público ao qual dão assim boas razões para os ignorar e desprezar? Todo povo, se não está doente de vaidade, quer mestres que o eduquem, não puxa-sacos que o cortejem.

Mas muitos escritores acreditam hoje que a obrigação da gramática é adaptar-se à língua falada o mais servilmente que possa, em vez de tentar domá-la. Deslumbrados da lingüística dão foros de lei científica a esse mandamento, e os ideólogos de plantão lhe emprestam alta significação política, condenando toda norma gramatical como odioso mecanismo de exclusão dos pobres e oprimidos – como se a Revolução Francesa não tivesse feito rolar 1 milhão de cabeças sem tirar do lugar um único pronome.

O preconceito antipurista, marioandradino na origem, adquiriu força de dogma ao longo de duas ditaduras (1937 e 1964), quando os intelectuais enragés, não conseguindo derrubar o governo, buscaram consolo na revolução da gramática; e acabaram instaurando no microcosmo das palavras uma ditadura semelhante à que os governantes tinham implantado no mundo físico. Ditadura inspirada num elitismo às avessas, que erigia os preconceitos populistas em norma de exclusão. O resultado foi que nos enclausuramos num círculo vicioso infernal: quanto maior a distância entre o falado e o escrito, menos gente lê; quanto menos se lê, maior a distância entre fala e escrita.

Tentando acompanhar no escrito os desvios criados pelo público iletrado, o escritor só pode fazê-lo em livros que não serão lidos, ou que só o serão por gente da classe alta que não fala como seus personagens. Enfim, cada um remexe o idioma como bem entende, aprofundando o fosso que imagina tapar. Cada um sonha imitar a língua do povo, sem notar que o povo, por seu lado, já não usa mais nenhuma “língua do povo” e sim uma pluralidade de modismos velozmente descartáveis, copiados da tevê. Muitos destes têm origem em simples erros de tradução de filmes americanos, em seguida consagrados em norma por jornalistas moderninhos. As classes legentes, imbuídas de altos ideais sociais e sacrossanta ojeriza a todo “lusitanismo reacionário” (como se fosse português o imperialismo cultural que tanto lhes dói), se crêem obrigadas também a imitar aquilo que imaginam ser a língua do povo e acabam falando num misto de dublês e academês que soma a elegância e a descontração: a elegância de um baile funk e a descontração de uma tese universitária.

Não espanta que, nessas condições, as novidades lingüísticas que aparecem sejam no mais das vezes frescuras sem inteligência nem funcionalidade, que só servem para dificultar a comunicação, emburrecer o público e incentivar o pedantismo de ignorantes que, desprezando os recursos da língua que desconhecem, acabam copiando giros da fala norte-americana e se gabam, por isso, de ser revolucionários estilistas.

Também não é mera coincidência que em geral as formas caídas em desuso sejam precisamente as mais funcionais, as mais úteis, as mais inteligentes. Um exemplo é a supressão da segunda pessoa do singular e do plural, tu e vós, com notável prejuízo para a compreensão dos pronomes possessivos da terceira pessoa. Paulo Francis procurava remediar e caricaturar ao mesmo tempo essa anomalia introduzindo sistematicamente, após esses possessivos, a explicação em inglês (his, her, your, their). Alguns cretinos, não entendendo a piada, reclamaram que o jornalista estava fomentando o colonialismo cultural…

Mais danosa ainda é a perda das formas contraídas que, sintetizando dois pronomes oblíquos, davam inteligibilidade imediata e intuitiva a relações que agora, para ser apreendidas, requerem longos rodeios verbais. O francês pode simplesmente dizer il me l’a donné, e nós, para transmitir o mesmo, somos obrigados ou a multiplicar as palavras ou a falar de maneira elíptica, que acaba sendo críptica e cada vez mais dependente do contexto não-verbal. Qualquer que seja o artifício usado, ele será mais complicado e ineficaz do que o equivalente vernáculo, isto é, a forma contraída mo, que a hipersensitividade histérica dos modernistas condenou como cacofônica, sacrificando a funcionalidade e a racionalidade no altar de um esteticismo imbecil.

Os danos que decorrem desse estado de coisas não são só estéticos e pedagógicos. São sociais e econômicos. Onde a inteligibilidade do idioma é baixa, é alta a improdutividade do esforço humano. É o reino da incompreensão, onde tudo é falha e canhestrice do personagem popular mais numeroso em todos os ofícios: o “Pouca Prática”. Pesquisas feitas em empresas mostram que, no Brasil, um aviso que circule por escrito não surte efeito: é preciso repeti-lo em voz alta. O escrito não tem persuasividade, seu conteúdo parece vago e distante porque, sem a estimulação auditiva, o corpo não é sacudido o bastante para dar à inteligência entorpecida um sentimento de realidade. O chefe que deseje passar uma informação aos funcionários tem de traduzir seu memorando na linguagem dos gritos e dos jingles. Não sabendo fazer outro tanto com os argumentos que acabo de apresentar, limito-me a registrá-los aqui para edificação dos pósteros e testemunho dos tempos.

Adendo

O mandamento de imitar a fala oral é, em muitos casos, apenas um pretexto. O que se imita, na prática, é o estilo do jornalismo norte-americano e o de certos escritores. Dentre estes, destaca-se Graciliano Ramos[1]. Este venerável roman­cista fez inadvertidamente muitos malefícios ao ensino do idioma. O principal foi o de banir o uso do pronome “eu” (abundantemente usado na conversação oral) , elevando ao estatuto de norma universal o que não era senão a expressão de uma timidez pessoal mórbida, necessitada de abrigar-se no impessoal e no coletivo. Hoje abundam por toda parte os períodos começados em “Ia”, “Dizia”, “Comia”, que obri­gam o leitor a esperar pelos parágrafos subseqüentes para saber quem ia, dizia ou comia. Mas Graciliano também ti­nha birra com certas palavras - todas as que não coubessem na boca de seus personagens - e com toda combinação de sons que irritasse seus ouvidos hipercríticos de neurastênico, permanentemente em guarda contra a ameaça do ridículo, imaginária no mais das vezes. Sua famosa explosão de cólera estilística – “Outrossim é a p. q. p . ! “ – suprimiu definiti­vamente do idioma uma palavra bastante útil, cujos equiva­lentes em outras línguas são usados sem qualquer inibição pelos melhores escritores. E a mera associação casual de “ter­-te-ão” com Terteão, nome de um personagem de suas fanta­sias de menino, fê-lo odiar para sempre a mesóclise pronominai. Mas isto já é levar a inibição até o limite da catástrofe.

Já imaginaram quantas palavras nos sobrariam se fôssemos evitar toda cacofonia produzida não só pela aproximação entre palavras comuns do idioma, mas entre palavras raras ou mesmo inventadas ? O estilo de Graciliano é, decerto, criação notável. Mas é criação limitada, destinada exclusiva­mente a resolver, mediante um complexo sistema de inibi­ções, recalques e prevenções lingüísticas, uma equação pes­soal muito peculiar. É criação para ser vista e admirada – jamais imitada; sobretudo, jamais imitada coletivamente. O próprio Graciliano era o primeiro a saber disso, como se vê pelos louvores que não regateava a estilos tão contrastantes com o seu quanto o espontaneísmo derramado de José Lins do Rego, o brilho feérico de Annibal Machado ou, para cúmulo de diferença, o barroquismo alucinante (ou aluci­nado) de José Geraldo Vieira. Mas aconteceu que Gracili­ano, passada a fase de comunismo explícito de Jorge Amado, se tornou a glória literária oficial do PCB e, como tal, “o” modelo. Desde então, um espectro ronda as redações: o espectro do “estilo seco”. Seco como o cérebro de um copydesk.


publicado no Jornal da Tarde de São Paulo em 24 de julho de 1997 e reproduzido em várias páginas internet afora; Adendo copiado d’O Imbecil Coletivo II.

[1]: Sobre Graciliano Ramos, ver O “não” como estilo, artigo para a revista Bravo! escrito dois anos depois deste (mas não sei quanto tempo depois, ou antes, do Adendo.).