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O TRAUMA DA EMERGÊNCIA DA RAZÃO

(texto das aulas do curso de Astrocarcterologia - SP, ministrado por Olavo de Carvalho de 1990 à 1992)

Intuição e Razão: o conhecimento de natureza simultânea e o de natureza sucessiva

A intuição é dita tripla por ter três aspectos unidos num único ato, fazendo com que o encadeamento sujeito-objeto-conhecimento se dê de modo simultâneo e imediato. Entendemos assim que se não existisse sol ou nenhuma outra fonte de luz, esse encadeamento não teria acontecido jamais, impedindo a constatação instantânea de qualquer objeto por parte do sujeito e, assim, o reconhecimento e o conhecimento de ambos. Sendo assim, nenhum conhecimento efetivo teria se operado jamais. Devemos, pois, o conhecimento, seja lá do que for, à luz.

Entretanto, não seria impossível que num mundo obscuro surgisse a diferença entre o som e o silêncio. Esse conhecimento poderia ter se operado - só que ele demoraria um pouquinho mais. Afinal, a diferença entre som e silêncio não poderia ser percebida de modo simultâneo, e isto porque existe luz e obscuridade ao mesmo tempo - mas não existe som e silêncio ao mesmo tempo. Posso fechar os olhos enquanto há luz lá fora e saber que está escuro dentro de mim ao mesmo tempo que está claro lá fora, ou seja, posso ter a consciência da obscuridade no mesmo instante que tenho a consciência da claridade. Portanto a tripla intuição não nos dá apenas a consciência da luz mas também a consciência da obscuridade no mesmo ato e no mesmo instante, inseparavelmente, ao passo que o processo que se dá entre silêncio e ruído não é assim. Afinal, o som é algo que se desenrola no tempo. Som tem que durar - senão não é som. Podemos dizer, assim, que a percepção visual nos dá a idéia do simultâneo ao passo que a percepção auditiva nos dá a idéia do sucessivo.

Poderia surgir uma tripla intuição, entre aspas, auditiva. Mas já não seria propriamente intuição: seria um raciocínio. E isto porque primeiro ouviu-se o som e depois o silêncio; isto é, foi-se combinando o presente com o ausente até chegar à conclusão de que há uma relação entre eles. É a razão que nos permite conectar o presente com o ausente - coisa que a intuição não pode fazer. E esta é a diferença específica entre elas. Com a razão, o homem pode construir esquematicamente a presença do ausente, representada por uma imagem ou por um conceito, e relacioná-la com uma coisa presente, ou até com uma outra coisa também ausente.

Características da razão

O procedimento da razão é um procedimento inicialmente destrutivo, crítico. Ela destrói o bom para ver o que resta no fim, como se fosse um cadinho de alquimista que vai esmigalhando o objeto em busca de sua essência. A entrada em cena desse processo crítico é a coisa mais traumática na vida do ser humano. E isto porque vai limpar, purificar seu mundo afetivo e imaginativo, embora o sujeito (em quem o processo ocorre e no momento em que ocorre) tenha a impressão de que está havendo a destruição de seu mundo imaginativo. Essa purificação fará com que o mundo imaginativo fique com menos coisas - porém mais valiosas - o que aumentará a capacidade de discernimento do sujeito.

A razão permite generalizar e resumir o conhecimento de forma a não ser necessário carregar imensa carga de memória. Ela obedece, então, a função prática de descarregar a memória. Também permite que se veja as coisas mais de longe: quando pensamos por conceitos, não temos todo o trabalho de recordar uma por uma as imagens dos objetos que lhes correspondem e, portanto, diminuímos a emoção, o impacto das imagens, que só são evocadas de longe e de leve, graças à rapidez com que passamos de um conceito a outro.

A razão é, sobretudo, uma elaboração de intuições. A intuição se desenvolve sozinha até um certo ponto: a partir daí entra a razão em funcionamento e, quando entra, se opõe dialeticamente a intuição. A razão nega a intuição, operando uma espécie de poda; mas ela nunca poderá podar tudo pois ela se apóia nesta mesma intuição que sofre a poda. Neste processo a intuição vai se aprimorando, florescendo, da mesma forma que uma planta, quando é podada no momento certo. Mas este movimento que vai da intuição para a razão é extremamente doloroso porque a razão pesa; ela desmente a intuição e esmaga os sentimentos.

Por tudo isso é que podemos dizer que a razão é a capacidade de dar forma coerente à totalidade da experiência. Esse desenvolvimento, entretanto, teria que ser em dois sentidos:

  1. ir abarcando áreas e domínios de informação cada vez maiores: seria um crescimento quantitativo e horizontal. Porém, só esse crescimento não basta;
  2. é preciso que internamente, as estruturas da razão se tornem também mais complexas, isto é, que ela seja capaz de abrir novas chaves que estabeleçam novas modalidades de relações entre os dados: seria um crescimento de integração.

Então, esse duplo processo da extensão do conhecimento e da integração do mesmo - cada vez mais perfeito e mais organizado - se daria no sentido de uma abstração cada vez maior. Isto que dizer que a razão, idealmente, procura abarcar toda a experiência e resumi-la em três ou quatro princípios básicos ( em convicções básicas, em certezas básicas), sendo capaz de referir a esses toda a experiência real que lhe acontece. Se não houvesse nenhum obstáculo, a razão prosseguiria abarcando tudo aquilo que, através da intuição, penetrou na memória; ela iria abarcando, classificando e integrando os dados de uma maneira cada vez mais coerente, até que todo o edifício da experiência pudesse facilmente ser resumido em um ou em alguns princípios básicos. Sendo assim, cada vez que se vai ampliando a experiência do indivíduo, mais facilmente ele vai classificando essa experiência dentro de conceitos abstratos mais abrangentes; e se existe o crescimento ao mesmo tempo da extensão e da integração, existe uma simplificação cada vez maior.

A razão procura, assim, reduzir a um mínimo o trabalho do pensamento. É por isso que pensar não é razão. Na verdade, quanto menos racional é o indivíduo, mais ele vai ter que pensar, e isto porque, se o mundo da razão estiver de fato organizado, a maior parte da experiência já estará conhecida, podendo assim catalogá-la facilmente nos gêneros, espécies e princípios já conhecidos de modo a não haver necessidade de um novo exame. Sendo assim, a razão, à medida que dá coerência aos dados da experiência vivida e aos dados da memória, à medida que simplifica o trabalho do pensamento, concorre para que o indivíduo não precise experimentar mil vezes a mesma coisa para saber no que vai dar pois, tão logo a experimente, faz imediatamente a indução devida, economizando, assim, tempo e energia. Desse modo, a razão está diretamente ligada ao instinto de auto-conservação do indivíduo. Comparando com os animais, a razão é - para o homem - aquilo que um princípio de auto-regulação instintiva é para os animais: a razão é uma auto-regulação do homem.

Se o animal crescido tem sua auto-regulação suficiente para assegurar sua subsistência no meio em que foi criado, a razão, no homem adulto, deveria ser suficiente para ele dar conta de todos os novos problemas e todas as novas situações que poderiam surgir dentro de uma certa regularidade no seu meio. Entretanto, isto não acontece. Daí, este homem se socorre da razão comunitária, isto é, da organização da comunidade. É evidente que o indivíduo necessita de tanto mais socorro quanto menos está estruturado. E é claro que existem seres humanos capazes de enfrentar até situações de emergência - mas a maioria não é nem capaz de enfrentar situações de rotina, e vive escorada nos outros.

Podemos dizer então que no ser humano acontece um desnível: alguns seres humanos vão muito além das necessidades rotineiras, enfrentando inclusive situações espantosas, enquanto outros, não. Ou seja, alguns têm muito a mais e outros têm muito a menos. Isto não acontece em nenhuma espécie animal. Numa outra espécie, a capacidade de auto-regulação de todos os membros é mais ou menos homogênea; não existe nenhum que seja muitíssimo mais hábil do que os outros e, se existe, são mínimas quando comparadas às diferenças entre seres humanos. A espécie humana não tem um nível de capacidade que nós possamos dizer média ou normal; o ser humano pode estar muito abaixo ou muito acima, e será considerado normal em ambos os casos. E - mais ainda - graças ao apoio da comunidade, a maioria de incapazes não será destruída - será protegida. Essas diferenças de capacidade de auto-regulação são, enfim, diferenças na capacidade racional de um indivíduo para o outro.

O processo de formação da razão

Há no ser humano, logo que ele nasce, um princípio de auto-regulação animal. Afinal, nem todo o aprendizado que o indivíduo faz já tem uma relação com a razão. A pergunta, então, é: quando é que o indivíduo passa da pura auto-regulação animal para a razão propriamente dita? Esse “ponto de passagem” se marca no instante em que o indivíduo faz uma pergunta a si mesmo, isto é, onde entra em cena uma dúvida consciente. E a dúvida consciente pressupõe o conhecimento da linguagem - o que quer dizer que a razão só começa efetivamente a se desenvolver depois que o indivíduo tem uma linguagem suficiente para poder fazer uma pergunta a si mesmo. Quando ele faz uma pergunta a si mesmo, isso quer dizer que ele tem consciência de que é possuidor de um conhecimento e que um outro determinado conhecimento lhe falta naquele momento.

O desencadear do processo racional é uma espécie de salto qualitativo em relação ao puro e simples aprendizado. O aprendizado começa desde que o indivíduo nasce e vai prosseguindo, encontrando obstáculos não ao nível da dúvida mas, sim, ao nível do erro. Muita coisa pode ser aprendida por tentativa e erro e enquanto o método de tentativa-e-erro bastar, este aprendizado ainda não terá nada a ver com a razão. Porém, chega um momento em que o indivíduo sente necessidade de algum conhecimento, de alguma resposta que ele não obtém por tentativa-e-erro. Quando isto ocorre, conscientemente ele está admitindo que lhe falta algo e que esse algo é muito importante. Ele está tendo consciência de si como detentor de um conhecimento insuficiente e falho, e isto em função de necessidades que sente como reais e urgentes.

Surge, assim, na sua cabeça, uma pergunta grave e urgente. Mas isso não quer dizer que ele saiba expressar essa pergunta perfeitamente, porque senão ele poderia fazê-la em voz alta. Além do quê, a pergunta que desencadeia o processo racional pode surgir sob formas muito variadas e disfarçadas. Por isso é que, se o indivíduo soubesse formular perfeitamente sua pergunta, encontraria a resposta. Porém, nós só podemos formular perguntas a partir dos conceitos e das palavras que temos, enquanto a dúvida e a interrogação vêm da experiência real, intuída, de modo que acabamos não tendo nomes para tudo aquilo que intuímos.

Tudo isso basta para se notar que quase todas as perguntas são formuladas com outros nomes. Sendo assim, coisas que você conhece por experiência pessoal, por intuição, cujos nomes ou sinais você não possui, você acaba possuindo de maneira muito imperfeita, não conseguindo então manipular esse conhecimento. Isto quer dizer que a insuficiência da linguagem do indivíduo já é um primeiro obstáculo para que ele domine a si mesmo. A razão do indivíduo só pode operar com uma parte mínima da sua experiência: aquela cujos nomes ele conhece, que ele tem sinais para designar, e aquela que a sua linguagem abarca. E a outra parte, onde é que fica? Fica fora da alçada da sua razão, isto é, não são manipuláveis racionalmente por ele, de modo que as questões mais profundas, mais dramáticas, mais radicais do indivíduo podem estar colocadas justamente neste sedimento não-utilizável pela razão. E pode acontecer que as experiências que lhe suscitam a interrogação sejam justamente estas cujo nome ele não tem, e que, por permanecerem formuladas de outro modo - mascaradas - acabam recebendo uma outra resposta.

A partir daí, cinde-se o mundo da experiência e o mundo da razão. A partir dessa cisão, a razão do indivíduo opera numa direção e a sua existência numa outra. A razão já não funciona direito, e isto porque só funciona para resolver uma parte muito insignificante, e essa parte pode não ser a mais relevante para aquele indivíduo. A questão verdadeira, que está no fundo, e que não se conseguiu expressar é - por assim dizer - jogada para o subconsciente para ser respondida mediante a auto-regulação animal espontânea que, evidentemente, não está capacitada a lidar com estes problemas. Afinal, a auto-regulação animal espontânea não pode responder perguntas humanas.

A razão fica, assim, enganada, pois ela só recebeu uma parte dos dados. enquanto a parte mais significativa está lá no fundo e vai ser trabalhada pela memória e não pela razão. Mas a memória, apesar de também operar uma classificação dos dados, funciona fundamentalmente por analogia, ou seja, é uma classificação puramente analógica, aproximando o similar do similar – e não por um processo racional mas, sim, por um processo de simbolismo. A partir desse momento, o indivíduo fica funcionando com duas mentes:

A. uma mente racional, que tenta organizar o todo da experiência; B. uma mente simbólica-analógica, que opera na memória através de uma outra classificação.

Ocorre, assim, a coexistência dessas duas metades, que estão normalmente superpostas - mas que se comunicam muito mal entre si. O indivíduo passa a funcionar com dois cérebros: um que funciona pelas categorias lógicas e outro que funciona por categorias analógicas. E ele acredita naquilo que ambas dizem. O ideal seria, então, que se pensasse ao mesmo tempo com a parte lógica e com a analógica, de comum acordo. Sendo assim, quanto maior for a limitação da capacidade expressiva do indivíduo, mais ele se verá obrigado a contar somente com esse computador analógico que funciona no andar debaixo. Por isso é que aquilo que permanece sedimentado e fechado dentro da memória acaba sendo trabalhado por uma espécie de analogismo louco que converte o dado em coisas muito diferentes, aparecendo no fim sob uma linguagem tão disfarçada que haja analista para decifrar tal mensagem.

Tudo isso quer dizer que experiências que deveriam ser idealmente abarcadas pela razão são devolvidas à memória e passam a operar subconscientemente, e que tudo o que é feito subconscientemente é muitíssimo mal feito - o que não ocorre quando existe um interesse efetivo em resolver o problema. Aliás, quando o trabalho da razão e da consciência são eficientes e completos, o subconsciente consente em dar o toque final. O inconsciente é um depósito de um milhão de imagens, todas confusas. Como ele funciona por analogia, é daí mesmo que poderemos tirar vantagens pois, quando dermos uma estrutura que for análoga a algum dado que ele tem lá dentro, essa mesma estrutura será capaz de puxar esse dado, que se oferecerá para nós.

O dado, por assim dizer, é atraído pela estrutura que você lhe forneceu. Ou seja: a pergunta estruturada e formulada claramente atrai a resposta devida. Se o homem fosse capaz de dirigir as perguntas certas a sua memória, ele seria um gênio. A experiência de cada ser humano é enormemente variada e, dadas as perguntas estruturadas certinhas, a memória faria o restante do serviço e concorreria docilmente para as finalidades conscientes.

A paternidade como símbolo da razão

A partir do momento em que o conteúdo da razão é devolvido à memória é que a razão mesma (como função) adquire uma personificação “mitológica” na cabeça do sujeito. A partir daí, a própria razão se torna um personagem no cenário subconsciente. É a partir do momento em que o sujeito não consegue desenvolver normalmente a sua razão que ele começa a operar, em nível subconsciente, com os símbolos da razão, ou seja, com símbolos que têm um poder descomunal sobre ele. E qual é este símbolo? Quem é este personagem? Muito simples: existe alguém que está colocado lá fora no mundo e que não parece ter esses dramas que tenho; ele parece dominar as circunstâncias que não domino, e tanto domina tais circunstâncias que domina até a mim mesmo e me dá ordens: portanto, ele é a razão - que é auto-regulação e auto-conservação. Ele é o poder. É aí que surgem, então, todos os símbolos do pai.

O pai é um fator que entra na vida da criança relativamente tarde, já que durante o primeiro ano de vida a criança praticamente nem sabe que isto existe. O pai volta a entrar em cena quando começa o aprendizado da linguagem e, logo, ele se transforma no símbolo da razão e do poder. Teme-se, inclusive, ele. Mas notem: o pai não é a sua razão, não é a sua auto-regulação, não é o seu poder - apenas o simboliza dentro de você. Isto ocorre de tal modo que o indivíduo se torna incapaz de colocar os problemas da sua auto-regulação sem referência ao pai.

Portanto, o padrão de racionalidade do mundo vem de uma destas alternativas:

  1. simbolicamente, através do pai;
  2. esforço pessoal para encontrar esse padrão.

Esse padrão jamais poderia vir da mãe porque ela, afinal, é o próprio sujeito. A ligação dele com a mãe é muito íntima: é de ordem física. A mãe não é um elemento exterior, não é um elemento estranho; ela não está fora do sujeito: afinal, ele é um pedaço do corpo da própria mãe; é, e será sempre. Entretanto, o que caracteriza o pai é que ele não tem esta ligação orgânica com a criança: ele vem de fora. Ele é um outro, enquanto que a sua mãe não é um outro. O primeiro dado a seu respeito de que se toma conhecimento já é um dado que não é biológico: é sociológico. Por isso é que ele entra muito mais facilmente como símbolo da razão do que a sua mãe já que ela, antes de causar um impacto sociológico, já causou um impacto biológico muito mais intenso.

Por isso, então, ela já tem uma outra função; e o pai, não. O pai nunca teve nenhum contato mais profundo. E a primeira coisa que você repara nele é que ele cumpre uma função dentro da família. Por causa disso é normal que o sujeito projete no pai essa sua auto-regulação. Na mãe, ao contrário, ele projeta a sua dependência. Afinal, tudo aquilo em que você não se auto-regula é a sua mãe quem supre: seu corpo expressa uma necessidade e é atendido desde fora, sem nenhum esforço de auto-regulação. Portanto, você está acostumado a lidar com a sua mãe em todos os pontos onde você não tenta uma auto-regulação. O pai, ao contrário, lhe dá em parte um sistema racional e pronto; ele lhe dá ordens e mantém essas ordens com uma certa regularidade - isto é o máximo que ele faz.

Caso não haja nenhuma figura paterna, o indivíduo terá - por aberração, se for um gênio - que captar algo como sendo a Ordem Cósmica, a Lei, Deus ou qualquer coisa assim - o que é muito mais difícil. A razão é uma só para todos os seres humanos. A razão é impessoal e é justamente esta impessoalidade e universalidade que o indivíduo deveria copiar e não o seu próprio pai, a figura do pai. A imitação de uma figura concreta e particular jamais ligará você com a universalidade da razão.

Por isso mesmo que a função educativa do pai consiste em ser a ponte entre aquele indivíduo e a universalidade da razão. O pai, aliás, está ali - para a criança - como um representante da razão. Quando se diz que “a vontade do pai é a lei”, isto significa que ela soa para a criança como uma máxima universal, válida em todos os casos. A criança politiza as ordens do pai, e isto porque ela não o ouve como a um indivíduo mas, sim, como a própria voz da razão. Se o pai é racional e lógico, e é racional e lógico para e naquilo que transmite à criança, a ponte entre a sua situação de criança e a razão universal estará estabelecida. O pai é uma ponte, é como se fosse um guru: o guru inicia-a apenas, leva a criança através das várias etapas até a conquista da razão universal.

Nem todo mundo é gênio para captar uma ordem cósmica abstrata. Na realidade, precisa-se de algum símbolo para passar por esta. Então, todo homem precisa de um pai, precisa de um símbolo. Mas qual é a função do símbolo? Tornar-se transparente. A função do símbolo é anular-se - enquanto símbolo - para deixar vir por trás de si a coisa que ele simboliza. E se alguém está aqui como o seu guru, este deveria transmitir o quê? A lei universal. Quanto menos racional for o pai nas suas relações, quanto menos ele transmitir objetiva e transparentemente a idéia de uma lei social externa, a idéia de uma ordem cósmica, e quanto mais ele impuser a sua figura, mais confuso você vai estar entre o seu pai e a razão. Você estará obedecendo àquele papai concreto que você teve e não à razão. Você continuará apelando para o símbolo da razão ao invés de desenvolver a razão. Você continuará imitando - seja de maneira positiva ou negativa - a imagem paterna, ao invés de desenvolver a razão.

Notem que, se o pai representa a razão, a ordem, a lei, e se ao mesmo tempo a sua relação com ele é negativa, ou seja, o medo predomina muito sobre a confiança, mais tarde você só confiará naquilo de que tem medo; aquilo que lhe pareça maligno, destrutivo, que lhe pareça dotado de um poder enigmático, feroz, que se volta contra você, lhe parecerá a própria encarnação da razão. O diabo, então, é uma das figuras do pai. É o pai que não fornece uma imagem transparente da ordem, da lei universal. Ao contrário, é uma imagem do absurdo, do terror, do incompreensível. Entretanto, você só confia neste, e é só este que lhe parece racional.

Desligar-se desta imagem de pai, substituindo-a pela imagem verdadeira é uma das tarefas mais difíceis. A noção de bem e de mal é colocada aí, nessa imagem de pai. O indivíduo somente se livrará da falsa imagem da razão na medida onde ele mesmo obedecer à razão, isto é, tomar a autoridade desse falso pai para colocá-la nas mãos da sua razão. Há antigos mitos que falam de indivíduos que se reuniam e comiam o próprio pai. Esses, talvez, não devam ser interpretados de maneira tão literal, nem talvez num sentido freudiano, isto é, onde comer uma coisa é incorporá-la a si. Sendo assim, a partir do momento em que o portador da razão - e do poder - passa a ser você mesmo e não o seu pai, isto significa que você “comeu” seu pai. Assim, todo mundo, de certo modo, deveria comer o próprio pai.

A razão, contudo, significa também ordem e disciplina. Ou seja: somente o indivíduo capaz de ordenar-se e disciplinar-se a si mesmo mais duramente do que lhe exige o próprio pai é que vai se livrar deste. Você tem que dizer adeus ao pai de carne e osso e começar a se referir a uma figura divina de alguma maneira. Todas as figuras mitológicas que representam uma força positiva não são nada mais do que o impulso do ser humano de reencontrar uma figura simbólica que neutralize o pai maligno, ou satanás. A razão, em si mesma, teria força para isso; mas nós não temos, e isto porque não nos motivamos por idéias abstratas mas por imagens. A imagem atrai o desejo e o desejo atrai a vontade. Para o indivíduo ser racional, ele precisa ter uma imagem de racionalidade que possa copiar. Ele tem que ter vontade de pensar. É por isso que você não pode voltar a sua razão crítica contra o pai maligno porque só ele coloca a sua razão em funcionamento, no sentido que ele quiser. Você não pode voltar a sua razão crítica contra o símbolo da razão: você está desarmado. Você não pode raciocinar contra ele porque ele é o fundamento da razão. Uma das técnicas usadas pelo falso guru pode ser a de desacreditar as imagens paternas autênticas, as dos sábios. O sábio é um indivíduo que ensina a razão universal, é uma figura transparente; se a imagem do sábio for tirada ou apagada de uma sociedade, ocorre a perda de uma poderosa defesa contra o mal.

Tudo isso aqui exposto é, em suma, um sistema de psicologia genética e evolutiva, e também o princípio de uma psico-patologia, formada a partir da idéia do trauma da razão em determinado estágio de desenvolvimento. Há um caminho ideal de desenvolvimento da personalidade; caminho este que raramente se dá, por encontrar obstáculos das mais diversas ordens. Estes obstáculos ou são de ordem particular, histórico-biográfica, marcada por vivências traumatizantes, ou de ordem geral e antropológica, marcada por um desvio que se introduz na formação da personalidade de todo o ser humano e que pode ser chamado, então, de desvio da imagem paterna.

Razão e psique

Às vezes a razão é representada como uma cruz que se carrega: o homem carrega sua razão como se carregasse uma cruz. Na língua árabe, a palavra que designa cruz é a mesma que designa espinha dorsal: çulb. Ou seja: a mesma cruz que o mantém de pé é aquela mesma que o derruba. Dito de outro modo: somente aquilo que lhe dá poder pode destruí-lo ou, como no ditado muçulmano, “só quem pode ajudá-lo pode atrapalhá-lo”. É esta cruz, aliás, que vai conferir dignidade ao homem pois é através dela que ele pode obter a consciência da necessidade da busca incessante da verdade. E é esta busca que vai humanizá-lo cada vez mais.

Às vezes, no entanto, a verdade dói, e esta dor gera um trauma cognitivo que surge no instante em que desponta a razão. Não existe nenhum trauma que seja pior do que este pois todos os outros traumas são localizados, afetam uma parte da psique enquanto este afeta toda a psique. Notem que quase todos os processos terapêuticos se baseiam no fato do indivíduo trazer para a luz da consciência certos conteúdos subconscientes, enquanto que este processo aqui descrito passa-se inteiramente dentro da consciência, sem qualquer coisa de subconsciente. Ele é tão geral e abrangente que, resolvendo-o, o subconsciente se resolve sozinho. E isto desmente a tese clássica de Freud de que o inconsciente preside o consciente. Afinal, tudo que está no subconsciente passou pela consciência: é ela quem determina o que entra e o que sai do subconsciente. Do que decorre que o ponto fundamental a ser destacado na cura psicológica é a reestruturação das bases da consciência do sujeito.

O critério de organização da consciência é fundamentalmente intuitivo até uma certa fase; depois, entra em funcionamento a razão. Se aí o indivíduo não faz uma transição gigantesca, uma adaptação bem sucedida ao mundo racional em que está penetrando, e tenta continuar na base da organização intuitiva, ele se torna um inadaptado à vida adulta e muito provavelmente será vítima de neurose ou outra coisa do tipo.

O “trauma da emergência da razão” é, pois, um mal antropológico e não apenas psicológico. Seria um mal próprio da espécie humana; mal, este, que se coloca na base de todos os problemas psicológicos individuais possíveis. Afinal, estes afetam apenas o indivíduo enquanto que aquele, antropológico, afeta a espécie como um todo.

A repressão da atividade da razão

A repressão da atividade crítica da razão é um dos fundamentos da neurose. O indivíduo faz a crítica racional mas, ao mesmo tempo, ele se impede de ver que está fazendo isto. Não quer saber. Por isso é que a repressão da razão parece ser muito mais grave do que a repressão do sexo: o homem pode viver sem sexo mas, sem razão, ele não vive nem cinco minutos. Se você reprime, por exemplo, o instinto sexual, o máximo que você pode fazer é sublimá-lo no sonho - e está resolvido. Mas como vamos sublimar a razão? Como faremos, se os conteúdos críticos negativos da razão são passados para o inconsciente?

Pelo fato da razão ter uma coerência, ela pode continuar presidindo seu comportamento pois, de certa maneira, você passa também a agir de acordo com uma lógica interna que vai se tornando mais desconhecida à medida que permanece no campo do inconsciente - e, assim, você vive em permanente perigo para a própria integridade.

Sendo assim, pode-se ou assumir a atividade crítica da razão ou reprimi-la por completo, “chutando-a para o inconsciente”. Mas, se eu a chuto para o inconsciente, mantenho a coerência aparente do campo consciente, fazendo com que minha conduta acabe sendo levada para direções que eu não quero. Essa divergência acaba se transformando, pois, num comportamento que podemos chamar de crítico.

A razão e as correntes psicológicas

Excluindo a idéia de que todos possamos ter nascido doentes, a hipótese que aqui se lança é a de que na maior parte dos casos nascemos sãos nas áreas inferiores. Os conflitos vêem de alguma maneira de fora para dentro, na medida em que há uma situação inacomodável (vide Piaget), isto é, ao longo do processo de assimilação das informações do mundo externo. É a partir daí que podemos ficar doentes. O homem padece, fica neurótico e eventualmente até psicótico não porque tem instintos ou traumas de ordem afetiva e sexual, mas porque não consegue desempenhar a função que lhe é própria. É claro que o ser humano tem também problemas na esfera animal, mas não são estes os conflitos característicos. Existem doenças que são próprias de cada espécie animal enquanto que as ligadas à razão é que seriam próprias do homem. Esta é a questão essencial.

Tudo isto é contrário ao que a Psicologia - pelo menos na área de psicoterapia - tem feito há 100 anos, procurando interferir somente na esfera afetiva para baixo. A quase totalidade das correntes psicológicas da atualidade está muito enganada quando ignora o aspecto intelectual das neuroses, pensando que os traumas provêem de problemas ligados ao aspecto passional do homem. Porém, a grande dificuldade é enfrentar o racional. O único grande psicólogo que deu importância a isto foi Viktor Frankl, fundador da logoterapia. Frankl foi o primeiro que formulou o aspecto intelectual das neuroses. Mas, em geral, a psicologia não aborda este ponto. Na realidade, o homem tem infinitamente mais medo da parte clara da sua alma do que da obscura: ele foge menos dos seus fantasmas do que de certas verdades inegáveis às quais se chega pela razão. Mesmo a psicoterapia de Viktor Frankl, que pertence às esferas mais superiores, trata apenas do aspecto moral, dos valores e do sentido da vida - mas nunca da esfera lógica.

O único que pensou nesses termos foi um sujeito chamado W.R.Bion. Ele imaginou algo neste sentido, porém não disse que o problema está aí. Afinal, se o Dr. Freud nos ensina a reconstituir a história do indivíduo, porque não há a possibilidade de reconstituir a sua história lógica, isto é, como se foi formando sucessivamente os seus quadros de referência? É nesse sentido que a obra de Bion pode ser útil, se bem que ela é muito complicada. Bion é um freudiano que leu Kant; começou a interpretar os sintomas neuróticos como Kant interpretou as formas a priori de entendimento, isto é, como algo que está a priori na cabeça da pessoa e que faz com que ela veja a situação de uma forma diferente. Bion chama isso de grade. Mas o próprio fato de chamar de “grade” mostra como é difícil reconstituir a história porque, na verdade, é uma sucessão de grades que mudam com o tempo.

Para poder reconstituir a história é preciso ter a chave central, ou seja, como é que o indivíduo começou a construir estas “grades de referência”, que acabam se constituindo, para ele, numa razão absoluta a que obedece indiscutivelmente. E nem adianta persuadir a quem montou seu esquema lógico de modo errado a pensar corretamente, e isto porque ele acaba remontando a idéia na sua forma original e equivocada. Para levar o indivíduo a admitir com toda a sua alma que, por exemplo, 2 + 2 = 4, deve-se permitir que seu esquema racional comporte tal informação e, para isso, às vezes se precisa ir até as premissas iniciais. Se o indivíduo lembra dos seus fundamentos primeiros e percebe a inadequação deles, o seu esquema lógico pode desmontar e remontar com uma velocidade impressionante. Por isso é que, se você propõe ao indivíduo tal reavaliação, pode ser que isto funcione como um catalisador, proporcionando que ele veja instantaneamente o eixo gerador de falsas interpretações.

É óbvio que temos que avaliar se estas falsas interpretações provêem ou não do fato do indivíduo ter torcido a verdade por estar movido por impulsos de outra orbe. Isto pode acontecer, mas é raro. Na maior parte dos casos as crianças vão torcer a realidade porque não têm informações suficientes e experiência, ou seja: não se trata de um trauma ou de uma distorção mas, sim, de uma privação. A fonte da desgraça humana é a ignorância.

Essa teoria do Trauma da Emergência da Razão pode inclusive conciliar as várias correntes de psicologia ou criar um terreno comum de disputa para elas. Afinal, cada nova “linha” corresponde a um novo resultado: a proposta de Freud, do complexo de Édipo, não é um elo comum; a de Jung, dos arquétipos do inconsciente coletivo, também não; e a de Adler, da vontade de poder, também não. Mas o processo aqui descrito se funda em algo que independe de qualquer tipo de estrutura social para ser verdadeiro: é como um elo perdido que, levado em conta, dá o ponto de convergência de todas essas teorias. Aliás, uma das conseqüências da Astrocaracterologia é a proposição de um ponto de conciliação, de um elo comum em meio a todas essas discórdias. O elo comum e o princípio mais alto que abarca todas as teorias traumatológicas da psique está, segundo creio, no trauma da emergência da razão.

Se fôssemos conversar a respeito de uma psicoterapia ou psicopedagogia, acredito na possibilidade do desenvolvimento humano a partir do momento em que se arque com a própria razão, com a própria contradição, isto é, transferindo o sofrimento de aspecto vivencial para o aspecto intelectual. A inteligência agüenta tudo, é a parte mais forte do homem. O homem agüenta viver em dúvida a vida inteira.

A razão e o ingresso no social

A razão é universal, e daí a inadequação que existe sempre entre o nosso organismo psico-físico - que é um, individual, singular, que tem suas próprias necessidades - e o funcionamento da razão. Nós nunca estamos perfeitamente adequados à razão. A razão só trata da generalidade; ela nunca é adequada para compreender nenhum caso singular. E muito menos o nosso. A razão é a cruz que o homem carrega. Em geral, a urgência daquele problema pessoal que foi colocado impede o indivíduo de olhar a coisa mais de cima. Se ele conseguir deixar este problema de lado e prosseguir no processo de educação que este exige, irá se transformar num membro da comunidade, num cidadão; senão, o seu destino será outro.

Pode-se, inclusive, medir se o indivíduo é neurótico ou não por esse ponto: o quanto que ele empacou ou não em determinada problemática pessoal que deveria ser encarada apenas como um mistério humano a ser investigado - ou, pelo menos, como um estímulo para tal. Freud estava na pista certa com relação a sua teoria sobre a neurose: ele dizia que esta era a inadequação entre o nosso organismo psico-físico e as exigências da cultura e da razão. Ele também estava certo quando dizia que a cultura e a razão já haviam ganhado a briga de antemão. Não adiantava, pois, querer livrar-se destas: o caminho do homem é de fato tornar-se racional, entrar na sociedade, na história - não tem outro jeito.

Sabemos que Freud buscou chegar ao mal antropológico fundamental, julgando tê-lo encontrado no “complexo de Édipo”, considerado um problema universal. Mas Malinowski demonstrou que em certas tribos tal complexo não existia, referindo-o como relativo a determinado contexto cultural e sociológico, derrubando assim a universalidade desta proposição. Adler, seguindo Nietzsche, disse que a “vontade de poder” é universal; no entanto, é possível ver culturas onde não se cultiva a vontade de poder. Sendo assim, o “complexo de Édipo” e o dito “complexo de inferioridade” não são antropológicos; são sociológicos: dependem do contexto desta ou daquela sociedade. Mas o mesmo não se pode dizer do pensar e do falar, isto é, do advento da linguagem e da razão: são fenômenos universais, dos quais a espécie humana não tem como escapar. Em toda a sociedade humana ocorre que cada sujeito, um dia, vai ter o confronto com a razão, e este confronto vai ser trazido por meio da cultura e não da natureza. Portanto, se existe um trauma inerente ou possível a esta situação do ingresso da razão, este trauma é universal.

A faculdade da razão, se os evolucionistas tem alguma razão, ainda não é plenamente dominada pelo homem. Se houve alguma humanização a partir de uma base animal, é normal que carreguemos estas faculdades superiores como uma cruz, já que se torna pesada demais para nós. É curioso que o Dr. Freud, que era um evolucionista convicto, não tenha pensado nisto - mas ele estava na pista certa quando disse que a civilização era a origem das neuroses. A civilização forma o corpo de leis, costumes, ou seja, todo o mundo da razão. Isto pesa sobre o homem.

Na realidade, o homem pode ter acesso a uma esfera que é muito superior a ele; esfera, esta, a do conhecimento, que acaba vislumbrando de um modo incompleto e fragmentado. Este tema do “incompleto” é, inclusive, um dos temas mais fundamentais da literatura universal, e obceca a imaginação humana. Vejam o número de histórias de mapas de tesouros incompletos, de objetos fragmentados em que se precisa encontrar a outra parte, ou casos de indivíduos que desconhecem uma parte de sua própria origem. Aliás, Édipo erra não por qualquer atitude doentia, mas por conhecimento incompleto. Aristóteles, quando define a tragédia, diz que a história se compõe basicamente de:

  1. patético = cenas que são emoções exageradas;
  2. peripécia = quando os acontecimentos tomam um rumo imprevisto; um rumo rumo imprevisto
  3. reconhecimento = quando se descobre algo que elucida o sentido dos eventos. um rumo imprevisto;

Por isso, vejam a importância que tem a informação faltante: é incrível que toda a psicologia moderna não tenha dado a mínima atenção a isto.

Podemos dizer, assim, que o processo de aquisição da razão é o processo de socialização do indivíduo. E isto porque a razão é uma faculdade essencialmente humana. Socializar e torná-lo racional é, mais ou menos, a mesma coisa.

A contradição do animal racional

A fonte da desgraça humana é a ignorância. Ela não é o único mal, mas na prática, é a raiz de todos os males porque, se não houvesse esta ignorância, todos os outros problemas que surgem como conflitos na esfera afetiva poderiam ser resolvidos. Mas, para o indivíduo os resolver, tem que usar o esquema racional que possui; mas, se o seu esquema racional está lesado (porque se desenvolve precariamente sobre uma pergunta central que já tem, em si mesma, uma contradição intrínseca), qualquer solução vivencial que der a qualquer coisa será equivocada, porque ela - a pergunta - a priori não foi resolvida ao menos na inteligência.

Parece-me óbvio que não existe nenhum conflito mais grave do que este; todos os outros conflitos são, por assim dizer, conflitos de força, isto é, de coisas que estão em movimento. Entretanto, este não é um conflito de força: é um conflito estático. Ele não se desenvolve. Ele simplesmente se repete. É como se dissesse que os outros conflitos são apenas conjecturais, isto é, fatos que acontecem e que o tempo se incumbe de dissolver. Mas este conflito não está na esfera dos fatos: está na própria estrutura do pensamento racional com que se tenta enfrentar os fatos. É exatamente a diferença que se dá entre o homem que está no escuro e o cego: quando se fizer dia, o primeiro vai enxergar enquanto o segundo vai continuar não enxergando nada porque o defeito não é a escuridão ambiente - é ele quem está internamente escuro, este é o seu ponto cego.

Há, assim, um certo defeito congênito na espécie humana; defeito este que se constitui na elaboração de um esquema racional cuja finalidade é o entendimento ou a razão mesma que dá, por sua vez, a tudo, seu verdadeiro sentido. Esse defeito - no posicionamento do indivíduo frente a qualquer situação de vida ou até mesmo numa análise biográfica - fará com que um equívoco sempre se repita ou apareça travestido sob várias formas até que, enfim, se decida resolvê-lo primeiro - o que só ocorre quando se tem um desejo sincero de autoconhecimento. Mas a maior parte das pessoas está disposta a aceitar explicações do tipo freudiana, reicheana e etc, que vão sempre imputar a responsabilidade do ocorrido ou aos outros ou a si mesmo. Mas - neste caso aqui - a responsabilidade não é dos outros e nem de si mesmo: é uma fatalidade. Fatalidade da própria constituição humana. E é isto aí que ninguém quer ver.

Tudo que tem autor é contingente: aconteceu, mas poderia não ter acontecido. O que é contingente nos alivia de certa maneira. Aquilo que tem sempre um culpado é sempre alguma contingência, um acidente: mas e aquilo que não tem culpado? Quando a culpa não é do papai, do passado, do capitalismo e tampouco sua? A quem ou a que imputarmos nosso sofrimento? Na hora em que nós aceitarmos esse sofrimento como constitutivo do ser humano entenderemos que temos que carregar essa cruz dignamente como todo mundo. Mas, e se não aceitarmos? E se aquilo que é necessário for tratado como contingente a ponto de tentarmos uma solução à força? Será uma tragédia dupla: afinal, não é para ter solução no nível vivencial em que originalmente se deu.

Notem que cada figura geométrica é aquilo que é e, por tal, está presa a um conjunto de leis que a definem, ou seja, a um conjunto de propriedades de onde decorre necessariamente sua definição. Sendo assim, por mais que se faça a soma dos ângulos internos de um triângulo, sempre se obterá o resultado de 180 graus. E isto não é por acaso: é porque simplesmente é assim - está na natureza daquele ser. Do mesmo modo, este conflito do homem com a sua própria razão está na sua própria natureza: ele não pode deixar de tê-lo. E isto porque o homem - se de fato é um animal racional - é definido por uma espécie de contradição; contradição esta que não lhe cabe resolver a não ser como desenlace final de uma vida - afinal, essa contradição não pode ser resolvida no começo pois, caso se resolva no começo, abole-se o ser humano.

Isto quer dizer que a resolução dessa contradição se constitui na própria vida do indivíduo: se não houvesse contradição, não haveria vida. Se você quer desligar, isto é, separar os “dois fios”, então você não quer viver: você está recusando a vida. O preço da vida é este sofrimento. O preço da vida do animal racional é arcar com a contradição da animalidade & racionalidade, sem poder abdicar de nenhuma delas. Da animalidade é evidente que não se abdica porque isto seria a mesma coisa que morrer; afinal, responder às necessidades biológicas é uma exigência para se manter a própria vida. Por outro lado, percebe-se que em tudo o que o homem fez em termos de racionalidade há o toque animal, e isto porque o homem não é racionalidade pura; o homem nunca é totalmente racionalidade pura porque, se assim o fosse, simplesmente não haveria sobre o que pensar. É o que dizia Aristóteles: o homem é uma fusão inseparável; uma mistura inseparável da racionalidade e da animalidade. E a separação disto ou é uma impossibilidade em si mesma ou é a morte. Este conflito, que é o que define o ser humano, é o que dá a ele o estatuto de humano.

O homem: o filósofo vivente

O Trauma da Emergência da Razão é um drama em que o indivíduo se vê confrontado com a necessidade de arcar com a sua condição de animal racional, deixando de tentar dar uma solução apenas na esfera animal, vivencial ou dos sentimentos. O homem comum - diga-se de passagem - é pragmático e requer muito pouco o uso da razão. Mas se a vida do sujeito se esgota num nível pragmático, as perguntas que solicitarem a inteligência racional ficarão de lado. Não aumentarão sua inteligência teorética e acabarão se revelando como problemas no nível vivencial. O homem tem muito mais inteligência do que a utilizada para resolver seus assuntos pragmáticos. E estes ‘excedentes’ que continuam funcionando o oprimem com perguntas irrespondíveis. Sendo assim, o que seria a principal arma do homem torna-se seu principal inimigo.

Na realidade, o sujeito está tentando resolver por um método experimental um problema puramente teórico, isto é, está tentando resolver na vida um problema que não está na vida. Fitche - um grande filósofo - dizia a seguinte frase: “Filosofar é não viver. Viver é não filosofar.” Sendo assim, se você está tentando resolver na vida um problema filosófico, você está confundindo a teoria com a prática. Aliás, o que acontece é que a teoria tem a sua exigência: ela chama o homem. O homem não pode viver totalmente no mundo prático. Ele tem um aspecto teorético que é inerente à condição humana - e que é renegado. E é renegado porque ele tem o desejo desgraçado de ser feliz. Ele acha que, ao se jogar direto na vida prática, vai encontrar a felicidade; quando, na realidade, deveria fazer o contrário: deveria recuar, meditar - teria que não viver. Lemos no Evangelho: “Quanto mais você quer a vida, mais você a perde; e aquele que desiste dela, a ganha.” Será que isto não quer dizer que filosofar é não-viver? Sim.

Por isso é que com filosofia finalmente se ingressa na vida com a perspectiva inerente do homem; perspectiva esta que o coloca numa condição integral e o tira de sua condição anterior fragmentada. Todo mundo tem que ser filósofo, fazer com que se forme a própria inteligência. Mas deve-se filosofar única e exclusivamente sobre aquilo que interessa, jamais evitando esse tema criteriosamente pelo fato dele incomodar. Se nunca se coloca um único problema real, fica-se com toda a parafernália do equipamento filosófico sem saber onde usá-la. Você se torna, digamos, um racional puro, e filosofa tal como os outros vêem geralmente filosofando nas academias; você se torna, assim, um filósofo do terceiro andar para cima - e do segundo para baixo um jumento.

Não tem saída: pra onde quer que você se vire, o homem é um animal racional. Ele é o próprio filósofo vivente. A razão é quem introduz o indivíduo, por assim dizer, no gênero ao qual ele pertence. Daí que os problemas suscitados pela razão mesma só podem ser resolvidos dentro do seu âmbito particular. Esta é, então, a definição do ser humano: ir além do seu limite biológico. O valor de um homem se mede por aquilo a que ele dedica a própria vida. Dedicar é dar; afinal, a vida não lhe pertence. Se você se dedicar e deixar sua vida ser gasta por alguma coisa, a sua vida - e você - não vão se consumir em si mesmos, feito cera que não produz luz alguma. E para quê devemos fazer isto: produzir luz? É que isto é próprio do ser humano: ir além do biológico. Além do necessário à sua subsistência. Afinal, é o homem que tem forças a mais. É inconcebível que um animal com um sistema nervoso tão complexo e primoroso tenha como destino somente comer e procriar. Isso seria um desperdício formidável.

A razão é a faculdade possuída igualmente por todos os seres humanos, ou seja, o que é válido para minha razão é válido para a sua. Entretanto, isto já não é o que acontece na esfera da vida animal: a minha vida não é a sua pois, se você morre, eu continuo vivo; se dói o seu dente, não dói o meu. Ou seja, aquilo que eu sinto você não sente necessariamente. O sentimento só existe na hora em que eu o sinto e na hora em que alguém concretamente o sente. Mas … e uma verdade racional? Ela é verdade quando se pensa e quando não se pensa a respeito: afinal, no tempo em que ninguém conhecia ainda o teorema de Pitágoras - no tempo do homem de Neanderthal - a soma dos quadrados dos catetos já não dava o quadrado da hipotenusa? E depois que desaparecer o último homem sobre a terra, não continuará dando? Isto quer dizer que entre a esfera da experiência vivencial e a esfera da razão existe um abismo, e que quem transpõe esse abismo é o homem. O homem é a conexão entre esses abismos; é a única conexão entre a animalidade e a racionalidade ou entre o singular e o universal.

Consciência e verdade

Na realidade, o homem que está conscientemente dividido é que sofre e não o que tem consciência cindida, isto é, consciência que luta contra si mesma. Aliás, este homem, que puxa o conflito para fora da consciência e que conscientemente não sofre, e cuja conduta é incoerente, é um homem ineficiente. E isto - resta dizer - é a quase totalidade da humanidade. Ou seja: a capacidade de sofrer conscientemente de uma dúvida muita pouca gente agüenta. Ter consciência é se esforçar para ter uma certeza em bloco e puxar para dentro dela todas as divisões e contradições que porventura existam. Ter consciência da própria cisão é saber, pois, que se está dividido; mas se o indivíduo não tem consciência da própria cisão, digamos, uma consciência culpada, das duas, uma: ou ele é santo ou chutou a divisão para debaixo do tapete.

Sendo assim, sofrer na inteligência é próprio do homem inteligente e consciente, isto é, do homem que deseja a coerência e o bem e, não obstante, compreende as divisões, as contradições da vida, os paradoxos de si mesmo; afinal, ele sabe que não é um tratado de lógica ou uma edição do evangelho. Por isso é que pensar essas coisas, sofrer intelectualmente com elas, tentando resolvê-las, equivale a carregar a própria cruz e a enfrentar a realidade. Na verdade, a saúde da inteligência é o sofrimento da própria inteligência: a inteligência saudável sofre. Mas isto só é possível para o homem que deseja fundamentalmente a verdade.

Por isso, tem que se saber todas as contradições pessoais, uma por uma, e fazer desta consciência que se obtém delas uma parte da sua visão do mundo. Na realidade, se o sujeito for sincero, ele não dará esta divisão e esta cisão como provisória - esta divisão faz parte da natureza humana. O homem vai ter esta contradição até o último dia porque é um animal racional. Ele é pura contradição. Ele é um ponto de naturezas adversas amarradas entre si. Estar consciente disso é, pois, carregar a condição humana.

O homem não pode melhorar a não ser na consciência, e a consciência dele melhora à medida que ele é capaz de arcar com a contradição. Se der para melhorar também a conduta, melhor para os outros. Sem dúvida, isto é um progresso - mas acontece que isto não é o ponto decisivo. O ponto decisivo não está na conduta boa ou má: está na consciência que se obtém. Se o indivíduo parou de fazer o mal e está fazendo o bem em prejuízo da sua consciência, ele é apenas um idiota piedoso. Ele está redondamente enganado sobre si mesmo. Ele tem uma falsa consciência e é fundamentalmente um mentiroso. Na doutrina católica, o mal existe e você não se livra dele em nenhum minuto: ela é fundamentalmente pessimista. Ela diz que o mal está na raiz da existência humana, no pecado original, e que não se pode apagá-lo. Contudo, isto não quer dizer que esta contradição entre bem & mal não possa ser superada: pode, mas não de modo que um se dê em detrimento do outro. A contradição, assim, poderia sempre ser reabsorvida numa outra perspectiva, a saber, racional, e não vivencial. Esse aspecto da razão é o responsável pelo enquadramento de toda a conduta numa direção onde o mal & o bem não estão anulados no plano vivencial mas, sim, encaixados em planos onde a contradição se torna motivo para gerar reflexões e compreensões e não tão somente fonte de dor e desconforto. À medida que se vai passando do código epicurista do prazer e da dor para o código da verdade, a própria preocupação com o mal e o bem que se fez diminui formidavelmente; afinal, já não interessa tanto saber se o ser humano é bom ou mal: já se sabe que ele é mal mesmo. Por isso é que existe um mérito na admissão da verdade: o amor à verdade é uma virtude fundamental. Se, além de ter amor à verdade, dá pra se ter uma conduta um pouco melhor, isto é somente melhor para os outros conviverem conosco.

A consciência existe e se fortalece na medida que existe a busca da verdade. Se não existe a busca da verdade e existe apenas a busca da vida, que importa o que acham a respeito do bem e do mal? Eles se tornam apenas um discurso ideológico para justificar a própria conduta. Sendo assim, todo o bem e mal que se faz se tornam ambos disfarce, mentira - por isso, se você abdicou da verdade, você abdicou do bem. A verdade é coextensiva ao bem - ela é o bem mesmo. Mais ainda: a indiferença pela verdade é dita, no cristianismo, como o pecado contra o espírito santo: todos os pecados podem ser perdoados, mas o pecado contra o espírito não é perdoado nem neste mundo, nem no outro. Sendo assim, cometa todos os pecados - mas não cometa este. Abdicar da verdade jamais se pode. Outra coisa: a religião, sem a tensão religiosa, só serve para corromper o sujeito pois a fé é usada como alívio. A tensão está exatamente entre a fé e a dúvida; onde não existe dúvida, a fé é um analgésico da consciência e, como as pessoas buscam a fé para não terem dúvida, ela acaba se tornando um analgésico na quase totalidade dos casos.

Tudo isto é a marca de que o homem é um animal racional, um ser feito para investigar a verdade. Ele é capaz disso e, se não atende a tal exigência, fica deficiente. Hoje em dia, a racionalidade - inclusive a científica - tem sido mais um instrumento da animalidade, com finalidades apenas pragmáticas, do que aquela compreensão que restitui o sentido da vida. Por isso, fazer qualquer coisa deixa de ser uma finalidade em si mesma pois se transforma apenas numa atividade instrumental que se esgota no atendimento das necessidades animais.

A razão mesma é, pois, uma finalidade do homem. E a espécie humana é particularmente infeliz porque não vive segundo sua finalidade. O homem é o animal que pode - e portanto deve - conhecer a verdade. Todo ser humano tem indagações que só podem ser resolvidas com certo conhecimento - mas nem todos vão dedicar seu tempo à procura desse conhecimento pois, na realidade, estão procurando uma solução prática para alívio do desconforto que sentem. Então, dividimos as pessoas em dois grupos:

  1. as que querem a verdade;
  2. as que querem alívio.

Estes últimos não o encontrarão pois, a nível puramente pragmático, o problema não tem solução.

Tudo isto, enfim, deve resumir o que se entende por pecado original: o que é a árvore do bem e do mal, isto é, a árvore proibida? É justamente desfrutar do gostoso e do desagradável. Mas e o que é a árvore do conhecimento? É a busca da verdade. A primeira é a árvore das necessidades meramente animais, enquanto a segunda é a das necessidades humanas - dessa, o homem pode comer os frutos; da outra, não.

Sendo assim, ter consciência já é ter má consciência; afinal, é ter consciência da própria impotência e, por tal, consciência culpada. Esse é o destino do homem. Afinal, o homem sabe de coisas que se prolongam para trás e para dentro de sua existência, e que vão infinitamente além do raio de sua ação física - e é por isso mesmo que ele é homem. Se o raio de sua ação pudesse se estender tanto quanto o seu conhecimento, ele seria uma potestade, um deus; mas, se ele quisesse nivelar a sua consciência apenas à esfera do seu poder, ele se tornaria um animal. Para o animal, não existe contradição entre o saber e o poder: tudo o que ele sabe expressa um poder real que ele tem. E onde ele não tem poder, de nada sabe. Então, se o sujeito não aceita o conhecimento, o saber, mesmo ficando impotente, ele não aceita a condição humana mesma; e já que ele não pode ser deus, resolve ser um bichinho.

Aceitar o saber sem poder é a base de toda ética humana. A base do conhecimento da verdade é essa: é você agüentar a culpa e saber que a sua não é tão maior que a dos outros não - está todo mundo culpado. Sendo assim, terá que aceitar que a sua inteligência é infinitamente mais potente do que a sua capacidade de ação. Vai ter que aceitar o saber sem poder. Aliás, a base do conhecimento psicológico é se ter consciência do próprio limite de ação. E isto é um dos maiores testes que o ser humano passa e, em geral, não agüenta.

Todo o ser humano tem de “carregar a própria cruz”, que é essa limitação no espaço temporal, essa condição carnal de uma inteligência, por assim dizer, imortal. Essa é inclusive a definição do homem: o animal racional; enquanto racional é a razão universal, abarca tudo; enquanto animal está cravado num corpo que é frágil, que dói, e que com o passar do tempo vai se estragando. Esta que é a verdade. Aliás, a rejeição da condição carnal é a definição do diabólico, isto é, a rejeição pra cima, onde se quer ter poder universal para se livrar da consciência da fragilidade física. De outro modo, pode ir também para baixo, virar um bichinho e destruir a própria consciência.


Copiado deste velho blogue: http://movimentosideral.blogspot.com.br/ em 2 de junho de 2014