A podridão

É razoável dizer que há três tipos de reações à menção do nome O que é Bitcoin? no Brasil:

  1. A reação das pessoas velhas

Muito sabiamente, as pessoas velhas que já ouviram falar de Bitcoin o encaram ou como uma coisa muito distante e reservada ao conhecimento dos seus sobrinhos que entendem de computador ou como um golpe que se deve temer e do qual o afastamento é imperativo, e de qualquer modo isso não as deve afetar mesmo então para que perder o seu tempo. Essas pessoas estão erradas: nem o sobrinho que entende de computador sabe nada sobre Bitcoin, nem o Bitcoin é um golpe, e nem é o Bitcoin uma coisa totalmente irrelevante para elas.

É razoável ter cautela diante do desconhecido, no que as pessoas velhas fazem bem, mas creio eu que também muito do medo que essas pessoas têm vem da ignorância que foi criada e difundida durante os primeiros 10 anos de Bitcoin por jornalistas analfabetos e desinformados em torno do assunto.

  1. A reação das pessoas pragmáticas

“Já tenho um banco e já posso enviar dinheiro, pra que Bitcoin? O quê, eu ainda tenho que pagar para transferir bitcoins? Isso não é vantagem nenhuma!”

Enquanto querem parecer muito pragmáticas e racionais, essas pessoas ignoram vários aspectos das suas próprias vidas, a começar pelo fato de que o uso dos bancos comuns não é gratuito, e depois que a existência desse sistema financeiro no qual elas se crêem muito incluídas e confortáveis é baseada num grande esquema chamado Banco Central, que tem como um dos seus fundamentos a possibilidade da inflação ilimitada da moeda, que torna todas as pessoas mais pobres, incluindo essas mesmas, tão pragmáticas e racionais.

Mais importante é notar que essas pessoas tão racionais foram também ludibriadas pela difusão da ignorância sobre Bitcoin como sendo um sistema de transferência de dinheiro. O Bitcoin não é e não pode ser um sistema de transferência de dinheiro porque ele só pode transferir-se a si mesmo, não pode transferir “dinheiro” no sentido comum dessa palavra (tenho em mente o dinheiro comum no Brasil, os reais). O fato de que haja hoje pessoas que conseguem “transferir dinheiro” usando o Bitcoin é uma coisa totalmente inesperada: a existência de pessoas que trocam bitcoins por reais (e outros dinheiros de outros lugares) e vice-versa. Não era necessário que fosse assim, não estava determinado em lugar nenhum, 10 anos atrás, que haveria demanda por um bem digital sem utilidade imediata nenhuma, foi assim por um milagre.

Porém, o milagre só estará completo quando esses bitcoins se tornarem eles mesmo o dinheiro comum. E aí assim será possível usar o sistema Bitcoin para transferir dinheiro de fato. Antes disso, chamar o Bitcoin de sistema de pagamentos ou qualquer coisa que o valha é perverter-lhe o sentido, é confundir um acidente com a essência da coisa.

  1. A reação dos jovens analfabetos

Os jovens analfabetos são as pessoas que usam a expressão “criptos” e freqüentam sítios que dão notícias totalmente irrelevantes sobre “criptomoedas” o dia inteiro. Não sei muito bem como eles vivem porque não lhes suporto a presença, mas são pessoas que estão muito empolgadas com toda a “onda das criptomoedas” e acham tudo muito incrível, tão incrível que acabam se interessando e então comprando todos os tokens vagabundos que inventam. Usam a palavra “decentralizado”, um anglicismo muito feio que deveria significar que não existe um centro controlador da moeda x ou y e que o seu protocolo continuaria funcionando mesmo que vários operadores saíssem do ar, mas como o aplicam aos tokens que são literalmente emitidos por um centro controlador com uma figura humana no centro que toma todas as decisões sobre tudo – como o Ethereum e conseqüentemente todos os milhares de tokens ERC20 criados dentro do sistema Ethereum – essa palavra não faz mais sentido.

Na sua empolgação e completo desconhecimento sobre como um ente nocivo poderia destruir cadauma das suas criptomoedas tão decentralizadas, ou como mesmo sem ninguém querer uma falha fundamental no protocolo e no sistema de incentivos poderia pôr tudo abaixo, sem imaginar que toda a valorização do token XYZ pode ter sido fabricada de caso pensado pelos seus próprios emissores ou só ser mesmo uma bolha, acabam esses jovens por igualar o token XYZ, ou ETH, BCH ou o que for, ao Bitcoin, ignorando todas as diferenças qualitativas e apenas mencionando de leve as quantitativas.

Misturada à sua empolgação, e como um bônus, surge a perspectiva de ficar rico. Se um desses por algum golpe de sorte surfou em alguma bolha como a de 2017 e conseguiu multiplicar um dinheiro por 10 comprando e vendendo EOS, já começa logo a usar como argumento para convencer os outros de que “criptomoedas são o futuro” o fato de que ele ficou rico. Não subestime a burrice humana.


Há jovens no grupo das pessoas velhas, velhas no grupo das pessoas jovens, pessoas que não estão em nenhum dos grupos e pessoas que estão em mais de um grupo, isso não importa.