Uma boa margem

  • No primeiro semestre da faculdade de Economia nós, os alunos, fomos guiados por um livro imbecil chamado “Introdução à Economia”. O livro listava lá trocentas coisas que economistas supostamente faziam como parte da sua natureza de economistas. Uma delas era, lembro-me desta frase, “economistas pensam na margem”.
  • De início eu não entendi onde era essa margem, mas a professora passou quase uma aula inteira explicando (isto é, lendo o capítulo) que “pensar na margem” era considerar que pequenas mudanças nas condições de qualquer coisa causariam mudanças em pequenos grupos de pessoas: as pessoas que estavam na margem da mudança.
  • Por exemplo, se um limão custa 5 reais e 100.000 pessoas compram limão todo dia, se aumentamos o preço para 5,05 pode ser que, sei lá, só 99.873 continuem comprando. Faz sentido, não faz? Isto era tão óbvio para mim no primeiro período de faculdade que não imaginei que alguém precisasse explicar, por isso não percebi qual era a da margem.
  • Até hoje, porém, vejo pessoas o tempo todo afirmarem categoricamente que o “cinco centavos não vão fazer diferença nenhuma, as pessoas vão continuar comprando o limão como sempre compraram” e invocando em defesa desta tese argumentos perfeitamente lógicos como “até parece que você ia deixar de comprar seu limão por causa de 5 centavos”, “eu nem olho o preço das coisas no supermercado” e “as pessoas precisam do limão, então elas vão ter que comprar, não importa o preço”.
  • Muitas destas pessoas entenderão a explicação sobre a margem, mas na próxima oportunidade que tiverem falharão em perceber a analogia ou em se lembrarem da margem e novamente evocarão os seus chavões. Para outras pessoas, porém, o pensamento na margem faz parte do bom senso habitual.
  • Tirando fora a inútil conclusão de que a maior parte das pessoas é burra, sobra-nos um problema.
  • Discussão
    • Estaria o autor do livro, contra sua própria vontade, enunciando uma verdade acerca dos tipos de pessoas que povoam a sociedade, “os economistas”, que são economistas desde o berço, e que “pensam na margem” por natureza, contra “o resto”, os não-economistas, que não pensam na margem, não importa o que se faça?
      • Esta é uma solução bem mixuruca. Nem é uma solução, na verdade, além disto ela deixa escapar um outro problema: por que diabos um sujeito que não consegue entender o problema do limão se candidata a um diploma de economista?
        • Bom, talvez aqui a hipótese da burrice generalizada explique bem as coisas: aparentemente a burrice que há nas universidades, no valor dos diplomas, na natureza da escola e em sua relação com as universidades faça com que jovens sejam despejados em qualquer curso sem terem noção nenhuma do que eles mesmos esperam que se dê lá. Ei-lo.
    • Há algum outro mistério aqui? O bom senso (enquanto um conhecimento apreendido dos meus vizinhos de sociedade) me ensinou a pensar na margem, ou não? Onde eu aprendi isso? Por que eu penso assim e o meu vizinho não?
      • Imagino que Bernard Lonergan responderia dizendo que os economistas são pessoas que tiveram esse insight e as outras pessoas não. Para as que tiveram o insight ele aparece já como uma obviedade, para os que não tiveram ele não é nem percebido como possibilidade (do contrário ele se efetuaria automaticamente como insight).
        • Neste caso, o que explica que pessoas entendam o caso do limão, caso se lhas explique com calma, mas falhem em aplicá-lo, minutos depois, a laranjas?
        • Há casos de economistas famosos e premiados que não conseguem conceber, por exemplo, que o aumento do salário mínimo possa fazer com que menos pessoas contratem funcionários – na margem. Estes mesmos economistas passariam facilmente no teste do limão. Paul Krugman é um exemplo clássico de pessoa definitivamente “economista” (pelo critério do limão), mas que falha na aplicação do mesmo princípio a situações em que ele tem interesse político.
          • Aqui caímos num outro problema totalmente diferente, mas talvez a dissonância cognitiva explique.
        • Falha na aplicação de analogias não é um defeito, segundo me parece. Afinal de contas cada nova aplicação de uma analogia ou de relação previamente conhecida é, em si, um novo insight. O insight pode não ocorrer facilmente em certas condições. Mas, nestes casos, imagino que com algum auxílio (alguém que te lembre da analogia correta a ser aplicada ali, fazendo com que você a teste por si mesmo) o insight ocorra.
    • Também posso considerar que eu estou errado e que é ilógico pensar que cinco centavos farão com que menos pessoas comprem o limão. Há centenas de estudos “empíricos” que mostram como “pensar na margem” é correto, mas estes estudos são todos inconclusivos, ou afetados por dissonância cognitiva por parte dos autores, economistas, que já começaram a fazer o estudo sabendo da conclusão. Tudo isto parece razoável. Tenho para mim, no entando, que não é nada razoável, mas um absurdo louco.